Gugie: “Gestos na relação consigo e com o outro” nas ruas da Ilha de SC

Por Adriana M dos Santos

11/09/2020

Gugie: “Gestos na relação consigo e com o outro” nas ruas da Ilha de SC

Os oito painéis que compõem o projeto “Gestos” distribuídos pela cidade de Florianópolis conduzem o olhar do transeunte a uma arte que busca despertar a sensibilidade, ao que remete à superfície da pele. É possível, também uma leitura crítica logo no primeiro momento, algo que remeta às angústias existenciais, sejam raciais, culturais, ambientais  as quais se projetam de forma violenta e explodem nos noticiários diariamente. Porém, se o observador calar a mente e deixar-se afetar pela imagem e o contexto, perceberá que a artista sugere uma leitura mais subjetiva, mais próxima de um afago, já que estamos pensando na pintura como pele e a experiência do tocar, no contexto atual, ser muito contundente.    

A experiência de grafiteira, antenada com as proposições da arte urbana, aliado ao conhecimento acadêmico como graduada em artes visuais, Monique Cavalcanti a Gugie, se constitui de ferramentas, textos, pincéis, latas de spray para compor um percurso através da arte.

O olhar acadêmico muitas vezes centrado num discurso muitas vezes considerado elitista, cuja formação cria certos paradigmas frente ao artista informal ou que, por escolha ou desmotivação, não fez a “faculdade”, gera certo distanciamento frente ao circuito de arte contemporânea por exemplo.

A opção de estudar ou formalizar o conhecimento infelizmente é um luxo num país de milhares de analfabetos,  pessoas com diploma devem sentir-se eternamente gratos pela oportunidade, e que pouco importa se esta condição cria animosidades entre os pares, são meios de sobrevivência, e cabe a cada um eleger os seus..

Sobreviver de artes visuais todos sabem não é tarefa fácil, ainda em pleno século XXI no Brasil a profissão se confunde com entretenimento, e mesmo pasmados diante do implacável cenário com que autoridades políticas e judiciárias criam para a cultura, seguimos na labuta do ateliê para a galeria, o museu, o bar, o hall do banco ou o espaço do shopping, seja qual for a chance de expor, e aí se impõe uma ação que por si é generosa, magnânima e afetuosa: dar ao imaginário do outro alimento para pensar, criar e ponderar além de outros impactos que a obra de arte pode suscitar.

Monique se imbui de um sentimento de conciliação, me arrisco dizer, onde suas pinturas na maioria na tinta acrílica com spray, adquirem títulos como “Relacionamento”, “O novo normal”, “Cangote”, “Auto cuidado”, “Sorriso do canto”, “Beijo”, “Pele”, “Pensamentos”.

Captamos uma aproximação intimista, afetuosa, em um tangenciamento sutil de envolvimento tanto quanto a maleabilidade da pincelada, o sopro do spray, o desdobramento da paleta cromática em algo mais que belo, em um mais- além dos pares dicotômicos feio/bonito, bem/mal, forte/fraco…estes já não dão conta de contextualizar a arte desde o século passado, talvez nunca tenham dado conta. Apenas se reproduz um modelo de pensamento que já não serve à arte e aos artistas.

O espaço da pintura  contemporânea já não é vertical, já não é transparente como foi no renascimento, o que se trata a partir das mudanças que constituem a história da arte, é que ao adentrar o período moderno a pintura passa a ser uma superfície opaca, horizontal onde o olho passeia , já não atravessa janelas em busca de um infinito sagrado.

O artista é um propositor de situações, aqui no caso, a artista propõe atos internos como diria Paul Valéry, pequenos gestos internos de sensibilização para um sorriso de canto de boca, um beijo ou um afago no cangote. A questão étnica evidenciada na cor da pele sugere uma condição de identidade e esperança traduzida no quadro “O novo normal” onde a alegria emana da figura como um ato de fé da mulher negra.

A cidade passa a ser a galeria, aberta, exposta às intempéries e ao olhar distraído do passeante, a obra ali encontra seu interlocutor desavisado, desarmado da expectativa de quem adentra uma exposição em espaços fechados. A rua é lugar da arte que independe da hora do abrir e fechar, é a luz do dia e a sombra da noite que determinam a circunstância da contemplação. E na rua o quadro passa a ser propriedade não apenas do olho, mas do tato.

Hugo Houayek em seu livro Pintura como Ato de Fronteira, escreve (…) “pensamos a pintura como pele, que se torna uma superfície de contato com o mundo, com o outro. Como membrana porosa, a pintura aparece na fronteira e na transposição desta, fazendo com que o ato de pintar seja um ato de permanente confronto com sua fronteira _ a pele _ na qual o espelho e o mundo se tocam, se confundem, em que o suporte é a própria superfície.” p.27, 2011.

Gugie escolhe dar ao seu projeto de conclusão de curso no bacharelado em artes visuais o destino da sua arte, às ruas da cidade, a ilha que comporta grandes grafites tecendo homenagens a figuras icônicas da sua história, mas que também possui seus referenciais nos muros e viadutos, por onde passam artistas com diferentes vertentes, desde o picho até o stencil, muitas vezes aleatórios ou com temáticas nativas ou com caráter provocativo e contestatório como o Cidade à Venda…

Esta via de apresentação do projeto acadêmico e o espaço urbano, com aportes de visitação também através de aplicativos, faz com que a artista se aproprie das ferramentas e dê vazão à sua incrível potência como criadora de possibilidades, com um trabalho autoral forte e coerente, Gugie nos remete à Jean Michel Basquiat quando assinava como Samo e grafitava nas ruas do seu bairro em NY nos anos 80 e através de reviravoltas da vida chegou às galerias e ao circuito da arte como artista legitimado.

Ocorre, porém que nem a instituição de ensino nem o circuito oficial dão conta da efervescência presente na obra desses artistas, cujo domínio técnico e conceitual, perpassa uma outra ordem que não é a da formação ou a da aceitação do sistema das artes, perpassa a coragem daqueles que agem com o coração, e subvertem espaços, criando estratégias para atravessar fronteiras e possibilitar que outros também o façam. Bravamente.  

    

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Adriana M dos Santos

Adriana M dos Santos

Teatro