DESDE O ÚLTIMO DESLOCAMENTO

Por Adriana M dos Santos

10/12/2020

DESDE O ÚLTIMO DESLOCAMENTO

Nunca estive nos Estados Unidos da América..

Ocorre que ao assistir os vídeos destes caros amigos artistas visuais, um pensamento como uma recordação logo veio,  como se tratasse de um lugar conhecido, estado, vivido _ faço aqui uma paródia de trecho da fala da artista Djuly Gava ao tecer considerações sobre o lugar do não-estranhamento, e que muito apropriadamente vincula este sentimento à memória de cinema e literatura que a cidade de New York se impregna.

O movimento da câmera sob a cidade logo de cara suscita uma proximidade muito familiar, quase como uma nostalgia de um lugar que nunca passei.  Deve ser que já tive esse olhar… talvez a familiaridade seja com a ação de olhar a cidade, não a mesma cidade,  cidades por onde já estive, e onde olhei através de uma câmera.

Ocorre que o movimento da filmagem nos impede de fixar as coisas…, através da janela e das gotículas de chuva cenas, estados de espírito, realidades sociais, étnicas, urbanas são fantasmagorias urbanas…cada recorte é uma piscadela, em cada piscada outra paisagem se apresenta, em frações de segundos outras texturas, outra cor, outra luz, outro cenário e o pensamento vaga pelo metrô, pela ponte, pelo interior do som levando longe a alma que nunca dissocia o presente do passado e do porvir. O que vem em seguida? Já não lembro o que veio antes.

O filósofo G. Deleuze diz: “ O que chamamos de um “mapa”, ou mesmo um “diagrama”, é um conjunto de linhas diversas funcionando ao mesmo tempo (as linhas da mão formam um mapa). Com efeito, há tipos de linhas muito diferentes, na arte, mas também numa sociedade, numa pessoa. Há linhas dimensionais e linhas direcionais. Há linhas que, abstratas ou não, formam contorno, e outras que não formam contorno. Aquelas são as mais belas. Acreditamos que as linhas são os elementos constitutivos das coisas e dos acontecimentos. Por isso cada coisa tem sua geografia, sua cartografia, seu diagrama. O que há de interessante, mesmo numa pessoa, são as linhas que a compõem, ou que ela compõe, que ela toma emprestado ou que ela cria”(…) P. 47 Conversações, 1992.

O contorno dos corpos no metrô, a presença efêmera de alguém em movimento nas ruas, ou parado à espera do deslocamento ao embarcar no vagão, o corpo ausente do artista que mira a cidade diante do movimento do transporte, seja terrestre ou marítimo, as linhas mais belas como traduziu Deleuze são estes vultos, estas sombras de gente anônima, transeuntes…a flânerie urbana do século XXI não é romântica, envolve muito mais um grande desespero por chegar e partir de algum lugar, mesmo que de forma lenta, contida, rotineira. E a este lugar me refiro a um “não-lugar”, termo cunhado por Marc Augé etnólogo francês,, cuja reflexão me parece apropriada neste momento:   

Os não lugares são tanto as instalações necessárias à circulação acelerada das pessoas e bens (vias expressas, trevos rodoviários, aeroportos) quanto os próprios meios de transporte ou os grandes centros comerciais, ou ainda os campos de trânsito prolongado onde são alojados ou refugiados do planeta.

(….) na realidade concreta do mundo de hoje, os lugares e os espaços, misturam-se, interpenetram-se. A possibilidade do não lugar nunca está ausente de qualquer lugar que seja. A volta ao lugar é o recurso de quem frequenta os não lugares. Lugares e não lugares se opõem (ou se atraem), como as palavras e as noções que permitem descrevê-las. ((Marc AUGÉ, Não-Lugares introdução a uma Antropologia da Supermodernidade, 2012.p.36 e 98).  

No fundo estes espaços da cidade falam de solidão, de ausências, estas linhas que a câmera capta em movimento são tão efêmeras quanto a passagem pela ponte, no caso a que liga Manhattan ao Brooklin, mas poderia ser outra ponte, sob outro mar.

A artista que registra a experiência e dá voz à narrativa fala de olhos como janelas…refaz o percurso…o que era ponte se transforma em objeto de considerações sensíveis…a solidão da artista permite que os não – lugares se transformem em sentido poético em lugares afetivos. E traz este sentido ao mundo quando chama de “elo” …

Considerando o tempo presente, final do ano de 2020, olhar a cidade presencialmente toma outro valor, por conta da condição pandêmica, os termos distanciamento e social adquirem outro sentido, além do que envolve o distanciamento do artista em relação ao objeto de estudo, além do afastamento para que se possa olhar melhor, se instala o medo da contaminação e a cidade como grande campo de batalha se torna vazia, ainda que em uma aparente normalidade cada qual com seu ritmo, sua população, sua loucura.

Sobre o video DEPOIS DO DESLOCAMENTO, o autor escreve:

Em novembro, completará um ano desde que registrei um plano contínuo dentro de um ônibus em movimento: o reflexo de uma mulher e, através dela, a noite caindo sobre uma cidade. Esse plano faz parte de minha tese de doutorado, defendida em agosto. Nomeei-o “N-York: A caminho do Anthology”. O Anthology Film Archives é um cinema/centro de preservação fundado por Jonas Mekas, cineasta lituano que viveu em Nova York até o ano de sua morte: 2019. Eu estava lá, precisamente, por conta da tese e por pouco o perdi.

Minha proposta de realização envolve a criação de uma banda sonora para este plano, composto por minhas reflexões a respeito da passagem do tempo ao longo deste último ano, da passagem da paisagem, da passagem para a morte, composta por trechos combinados entre os diários de Jonas, os meus e os de Djuly, também artista visual, vista no reflexo.

Ao longo dos últimos seis meses, as mortes nos são comunicadas em pequenas narrativas e em grande números. Sem podermos nos deslocar livremente pela cidade, recebemos essas notícias através dos jornais e dos amigos, familiares. “desde o último deslocamento” pretende fazer uma reflexão ensaística e pessoal a partir desses dois temas: a impermanência das coisas e a impossibilidade de transitar.

Ela será realizada através do entrelaçamento de leituras anacrônicas (dos diários de Mekas, seu deslocamento como refugiado de guerra, seus deslocamentos pela cidade de Nova York; dos diários de Djuly suas narrativas sobre os seus/nossos deslocamentos pela cidade; e das minhas anotações pessoais). (Daniel Leão).  

Neste “ Desde o último deslocamento”  podemos sentir o olhar tátil, cuja captura de imagem agrega um valor sensível aos personagens de cada fragmento enquadrado na lente. As flores e a ponta do farol do carro que estaciona, rostos refletidos gerando sobreposição de transparências,  focos de luzes,   “Let me see”, vultos atravessam a horizontalidade da filmagem, “Bahia is Brazil”, o homem se move e vira camadas de cor a pincelada é o corpo em movimento, uma fina camada de gelo….a música que nos conduz à certa introspecção muito próxima dos filmes que assistia no cinema do centro integrado de cultura nos anos 90…

Nestes tempos em que sair de casa deixou de ser trivial, andar na cidade deixou de ser casual, deixar que outro ser humano se aproxime deixou de ser normal, e respirar passou a ser uma sorte, assistir essas imagens conduzem inevitavelmente à certa nostalgia como já mencionei no início destas considerações. No entanto, há que se considerar a valiosa contribuição destes videos e o quanto a videoarte se torna contundente como linguagem que tange o movimento, que fala de morte enquanto constitui este movimento, enquanto faz uma linha sem contorno e faz emergir a beleza da vida que se desloca em frames.     

Este material se torna um registro/ação/reflexão a meu ver num contexto onde a arte possibilita a quebra da descontinuidade como conceituou Georges Bataille, ao afirmar que somos seres descontínuos…que entre nós existe um abismo…mais do que nunca, são as epidemias, as guerras e a violência que corroboram estas palavras, porém a arte sugere sempre uma ponte entre abismos, assim como os afetos e a compaixão entre outros pulsares..somos o elo depois do deslocamento..

Djuly Gava:
ELO é uma videoarte realizada a partir de fragmentos em vídeo coletados durante meus deslocamentos na cidade de Nova Iorque, onde desenvolvi parte de minha pesquisa de mestrado. Uma primeira versão deste vídeo foi apresentada na ocasião da defesa de minha dissertação. Naquele momento, o vídeo foi elaborado apenas pela simples disposição linear das imagens capturadas. O que proponho aqui é transformar este material bruto (ou arquivo pessoal de imagens em deslocamento) em uma videoarte para transmiti-la em tempo real, articulando de forma conceitual a leitura em voz off de parte de minha pesquisa de mestrado composta por narrativas e reflexões sobre o deslocamento em diálogo com citações de outros/as artistas.
https://youtu.be/NG-kJbnf6Q8


Daniel Leão:
DESDE O ÚLTIMO DESLOCAMENTO música de lucas newman, textos de djuly gava e jonas mekas, imagens de mekas e rogério sganzerla e d. v. leão

Adriana Mdos Santos
Ilha de SC Dezembro de 2020      

Adriana M dos Santos

Adriana M dos Santos

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