Corpo Transgressor

Por Adriana M dos Santos

13/08/2020

Corpo Transgressor

“Não pense que eu espere encontrar simpatia. No início, o que eu queria era participar dos sentimentos de amor, virtude, da felicidade da afeição, de que todo o meu ser estava inundado. Mas agora que a virtude se tornou sombra para mim e que a felicidade e a afeição se transformaram no mais amargo e odioso desespero, onde devo procurar compaixão?”

(Mary Shelley, Frankenstein)

            O Monstruoso como referencial de uma transgressão corporal extrema submete o outro à sua aparência de horror e dor, é um ser que convida desde um estado de compleição e apatia, de reações internas que tangem à abjeção, até ao medo e o temor pela própria sobrevivência.

Tornamo-nos monstros em certas condições,  num âmbito cotidiano transformamos nossa expressão facial por segundos em esgares, contorções, caras que se retorcem por instantes, alterações do corpo e da mente que reagem a certos fatos, estados internos que sobrepujam a normalidade aparente.

Existe o monstro interno, que se mantém em uma controlada ordem submetida à outra ordem externa que impõe a convivência, o bem-estar coletivo, social, submetido à aceitação pelo reconhecimento de um igual. Chamar de monstro outrem é criar estranhamentos, distâncias, abismos…

            O monstruoso, no entanto, possui também sua ambígua lateralidade, também este põe em jogo sua condição de bem e mal, pois há nele uma perpétua exclusão, mas, por outro lado, é sempre passível de criar afetos, porque há nele esse apelo quase irresistível de desproteção, de um estado de outsider carente dessa convivência, dessa empatia que tranquiliza os olhos e o coração.

No entanto, há nele a revolta, o isolamento. Igualmente torna-se um ícone da violação da regra, a condição que o potencializa também o fragiliza, transita pela borda, pela margem, muito embora seja esta uma visão convencional em relação a esse ser, esse estado de ser que nem sempre é físico, aparente, carnal.

O previsível dos monstros é seu permanente estado de banimento. Historicamente tem se apresentado assim, porém, há neste um poder de atração igualmente forte que se iguala ao poder de repelir. Ocorre que as leituras dessa condição de monstruoso são diversificadas, não há aqui uma definição exata, é o monstro de cada um, o monstro com todas as suas costumeiras características: deformação, violência, ironia, dor e subversão.

Porém, existe o monstro que se mostra e o que se esconde, há na impotência do corpo, na mutilação do corpo, na transfiguração uma força exposta que remete a ele, mesmo que não seja sensivelmente uma denominação adequada, dadas as conotações negativas associadas a esse termo, é o monstruoso do cotidiano, convivendo entre os limites de sua existência, entre os que se acreditam destituídos de tal nominação.

           A pintura, tanto quanto o desenho, com a sua expansão a outras categorias, permite uma leitura sensível do monstruoso, seja refletindo internamente seja captando o fora, existe no olhar de cada artista uma apreensão calculada ou espontânea do campo que o abrange.

O olho atento ao monstruoso mais do que ao ícone em si, contaminado pelas histórias em quadrinhos, o cinema, a literatura e a vida cotidiana, desborda um sentimento em relação ao tema, seja metaforicamente, simbolicamente, afetivamente ou por derrisão; há na ação de cada um uma intenção crítica ou contemplativa de abarcar o monstro como se fosse abarcar o reflexo em um espelho, utilizando um termo beckettiano, em um ato inominável.      

O corpo materializa um olhar voltado para o monstruoso, contido no  que formulamos como um corpo transgressor. Importante ressaltar que o monstro aqui trazido à tona é um ser cuja simbologia encontra nesta reflexão uma relação visual e conceitual, pois o aproximo da obra de Samuel Beckett.

Aqui abro um parêntesis para contextualizar a menção ao autor irlandês. Em minha pesquisa conjectura-se uma possível aproximação com alguns conceitos encontrados na obra deste, e um deles é o impedimento, termo cunhado por Beckett em diferentes sentidos (o impedimento-objeto, o impedimento-olho, o impedimento de pintar…) o qual me aproprio afim de tecer estas considerações que partem do monstruoso em direção ao humano, no caso o impedimento do ser no sentido de um existir sem o outro.

Poeticamente um certo silêncio se impõe na relação obra/observador, quando esta condição (monstruosa e inumana) emerge na tela. Nesse silêncio carregado de significados por vezes de incertezas incômodas… de chegar a um lugar de controle (no espaço, na fala, no sentido) como condição de existência, talvez esteja o monstruoso beckettiano. “E na verdade não é tudo guardar silêncio, mas é preciso ver também que tipo de silêncio se guarda […]” (BECKETT, O Inominável p.51).

A presença de próteses na cena que deriva da narrativa literária, o pensamento que extravasa a oralidade desconexa, ação sem rumo, histórias inacabadas, incongruentes, um jogo que tem a repetição como estratégia de combate, a ausência de linearidade, sofrimento que é patético, derrisão, esses fatores conspiram para que, em nossa conjectura, o monstro em Beckett seja essa ambiguidade singular entre fragilidade e potência, na qual ele construiu sua obra.   

  O personagem Molloy nos conduz a um estado de perplexidade, por vezes banal, por vezes grotesca, por vezes humana, demasiado humana. Uma aproximação que podemos fazer para contextualizar a presença do monstruoso é que Molloy possui tal desdobramento de identidades que impede que se defina quem ele é, porquanto é um personagem ficcional de múltiplas faces, que não deixa de provocar uma identificação em algumas de suas inúmeras personalidades e elucubrações existencialistas com qualquer leitor de sua narrativa.

Estamos frequentemente submetidos a inquietações que desestabilizam a noção de completude, de moralidade, de normalidade, porém Molloy é um anti-herói difícil e atormentado, pois não atende às necessidades da ordem (social, política, ética), justamente porque é um não corpo, um não lugar, é uma voz que é dada ao fazer ver, pelo medo, pela dúvida, pelo fracasso, pela impotência, pelo ceticismo, pela ironia, pela coragem e covardia, e ao mesmo tempo calculadamente sem sentimentos, o ridículo de uma existência sem sentido, é o absoluto derrisório existencial: “[…] e infelizmente há outras necessidades além daquela de apodrecer em paz” (BECKETT, 2004, p. 110).      

            Molloy, personagem que dá nome ao livro da trilogia além de O Inominável e Malone Morre, apresenta a noção clara de percurso, de devaneio, porém, não muito consciente de si e de suas incongruências, ele oscila entre limiares. Ao indagar o que é real já não sustenta uma resposta, pois um “mais-além” impõe uma reflexão mais profunda, em silêncio, quase uma consternação, imbuída de profunda ironia.

[…] E se não mencionei essa circunstância no devido lugar, é que não se pode mencionar tudo no seu devido lugar, mas é preciso escolher, entre as coisas que não valem a pena ser mencionadas e as que valem menos ainda. Pois se se deseja mencionar tudo, não se termina nunca, e tudo está aí, terminar, em terminar, […] mas muda-se de merda. E se todas as merdas se parecem, o que não é verdade, não faz mal, faz bem mudar de merda, ir numa merda um pouco além, de tempos em tempos, borboletear um pouco, como se você fosse efêmero. (BECKETT, Molloy,  p. 66).

Há um tempo em que Molloy emaranha-se em contradições com seu corpo: “Minhas duas pernas são duras como a justiça, e, no entanto, me levanto de tempos em tempos” (BECKETT, p. 92). Nada parece determinar um percurso lógico, pois que  se trata também de estabelecer um “talvez” para quase tudo. “E se tiver um dia de procurar um sentido para minha vida, nunca se sabe, é desse lado que vou esgaravatar primeiro, do lado dessa pobre puta unípara e de mim mesmo último da minha raça infame, me pergunto qual”. (Idem, p. 8).

A arte pode tentar dar voz a essa condição de impedimento físico, no corpo trazido à tona na imagem pintada, na presença no palco, na tela do cinema, na palavra escrita. É nesse corpo que Beckett expõe suas inquietações, suas aberrações e sua estranha lucidez, de uma lúcida transgressão…arriscaria dizer.

Texto adaptado da tese de doutorado Disability ou Samuel Beckett e a Pintura defendida em maio de 2013 pelo programa de pós graduação em Teatro PPGT do Centro de Artes / UDESC 
Adriana M dos Santos

Adriana M dos Santos

Teatro