Um bate-papo com Ronald Teixeira: Artista nacional premiado no Brasil e no mundo

Por Lis Maia

27/10/2020

Um bate-papo com Ronald Teixeira: Artista nacional premiado no Brasil e no mundo

Cinema, teatro e televisão. Filmes, peças e novelas.

Esse mundo todo me fascinou desde sempre! Lembro-me, ainda criança, de ficar vidrada e sem piscar, olhando e observando toda aquela magia. Prestava atenção em cada detalhe e sempre tinha uma pergunta a fazer para minha mãe: “… Mãe, aonde é esse lugar aí no filme? Quero ir lá… Mãe, têm daquele vestido pra vender? … Mãe, posso usar uma peruca assim também? Eu queria… Mãe, posso ter um quarto igual daquela menina? Mãe, se a comida saiu do forno, porque não têm fumaça? “

Sim. Eu perguntava demais, já sei…rs. Mas eu era apaixonada pelos detalhes: tudo eu queria saber e entender. Foi aí que descobri a palavra BASTIDORES! Bingo! Era isso que me fazia brilhar os olhos! Numa certa idade, eu já entendia que era tudo ficção e que eram atores contando uma história. Mas o que eu continuava a prestar mais atenção, eram os detalhes do que eu assistia. Mais tarde, já na faculdade de Artes Cênicas, fui estudar e compreender o que era cenografia, direção de arte e indumentária.

A criança que morava em mim (e mora até hoje), finalmente começou a descobrir o que acontecia “por trás das câmeras” ou nos bastidores, para que tudo criasse vida e encantasse os olhos dos espectadores. Passei a estudar e a entender que fazer tudo aquilo não era nada fácil.

O cenário deveria ter coerência com a “vida” e “personalidade” dos personagens, que os “objetos cênicos” não estavam ali por acaso, que o figurino e suas cores também contavam a história proposta no roteiro, não somente a história do seu personagem. Tudo tinha uma razão de ser e estar, e a harmonia desse trabalho resultava no que o espectador via como produto final. Estudei sobre vários profissionais de cada área e me encantei por muitos mestres de cada ofício. Como tinha brasileiro talentoso nesse mundão de meu Deus! Que maravilha! Que alegria! Mas como eu passei tanto tempo sem conhece-los? Estudá-los? Santa Faculdade!!!

E olha a minha boa sorte na vida: depois de formada, já morando na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 2007, tive o prazer de conhecer pessoalmente Ronald Teixeira¹, na época assinando o cenário e o figurino da peça teatral “Dona Flor e seus Dois Maridos”, da qual fiz parte como atriz. Hoje eu tenho a honra de chamá-lo de amigo!

Ronald é um renomado e premiado Diretor de Arte, Cenógrafo e Figurinista, além de lecionar cenografia há mais de 30 anos na Escola de Belas Artes da UFRJ. Têm o seu nome em destaque por todos os lugares e projetos por onde passou, e que ainda passa até hoje: cinema, teatro, televisão, casas de cultura, museus.

Se você é um apaixonado como eu, pelas linguagens artísticas e seus “detalhes”, essa entrevista é para você! Mas se essa paixão não dominou o seu coração ainda, essa entrevista também é para você! Tenho certeza que ambos, em algum momento da vida, já se depararam com o trabalho do Ronald; mas me refiro aqui aos leigos, pois quem é do nosso meio (das artes) – tenho certeza – sabe da importância desse profissional no nosso mundo artístico, tanto no âmbito nacional quanto no internacional.

Sem mais delongas!

Para vocês, um bate-papo com o meu querido amigo, Ronald Teixeira! Deleitem-se!!!

Como foi o seu primeiro contato com o mundo das artes e como descobriu que esse era o seu destino? Conte-nos um pouco da sua trajetória…

Foi o seguinte. Eu sou filho de pais exóticos. O meu pai decidiu a carreira dos filhos: meus irmãos ele decidiu que eles fossem da área de engenharia, da área de psicologia e da área da química. Meu irmão foi estudar economia e depois direito, e a mim ele sempre desejou que fosse um artista. Eu queria ser engenheiro civil, que eu gosto muito dessas coisas de construir coisas, pontes, casas e tal.

Na escola, ainda no antigo primeiro grau, uma escola de ensino moderno – eu morava em Niterói – era uma escola que preparava os jovens para as artes de um modo em geral, e lá foi um celeiro de grandes artistas; essa escola se chama Centro Educacional de Niterói e ele me pôs lá com a intenção que me formasse intelectualmente e me preparasse para seguir a carreira das artes.

Então, nesse período do antigo primeiro e segundo grau, eu estudei cinema com Nelson Pereira dos Santos², eu estudei gravura com Newton Cavalcanti³, com Rubem Grilo⁴. Eu tinha aula de filosofia desde a oitava série com o professor Rezende, que foi o professor que fundou o curso de Filosofia de graduação da PUC, um dos mais fortes cursos de filosofia e por aí vai. Foi aonde eu também iniciei os meus estudos na música.

Antes de me tornar cenógrafo, eu fui músico concertista. Eu tocava “tchêlo” (violoncelo), estudei canto durante muitos anos, e essa formação se deu inicialmente nessa escola. Eu tinha aulas o dia inteiro lá. Nós nem levávamos os livros para casa, porque estudávamos de segunda a sábado, de manhã e de tarde. Tínhamos aulas de gravura, aulas de pintura, aulas de história da arte, desde a nossa primeira formação.

Essa escola de alta qualidade, era uma escola de ensino livre, com professores artistas, e por desejo do meu pai – ele com essa visibilidade de perspectiva –  eu acabei fazendo vestibular e passei logo nos primeiros lugares para desenho industrial. Na época em que eu estudei o vestibular, os cursos mais procurados nas áreas de artes na UFRJ, na escola de Belas Artes, você passava e era classificado para o curso que era mais procurado, e eu fui estudar o desenho industrial, sem mesmo saber o que era o desenho industrial; porém era um dos cursos ligado as artes, e aí quando eu comecei o meu curso, me deu um grande preparo: porque daí eu fui fazer oficina de têxteis, eu aprendi a fazer tecido, aprendi a fazer tintas, a restaurar obras de arte, ter aulas de marcenaria, metalurgia – que era o meu preparo também para questão do ensino do desenho industrial. Mas, em uma das salas de aula, próxima a sala de desenho industrial, tinha a sala da professora Marie Louise Nery⁵, que foi uma grande artista, cenógrafa e figurinista – e trabalhou com Bergman⁶ (Ernst Ingmar Bergman).

Ela era suíça, e a sala de aula dela era fascinante! Ela fazia maquetes, vestidos de época de papel! Era uma grande desenhista e ilustrou livros muito importantes para a formação das crianças aqui no Brasil: O Menino do Dedo Verde, O Cavalinho Azul, A Arca de Noé (de Vinícius de Moraes). Ela foi uma artista extraordinária! Uma mulher de uma potência incrível!

Eu ficava sempre na porta da sala, desse grande atelier dela, com o meu portfólio, e assim, eu sempre muito tímido e ela “…entra aqui. Deixa eu ver os seus desenhos…”  Aí eu mostrei os meus desenhos. Ela falou assim: “Olha… você está projetando um sofá que vira um avião. Você acha que isso vai ser um objeto que vai ser repetidamente industrializado e vendável? As suas obras dependem de uma atividade performativa. Você tem que vir para a cenografia”. E eu fiquei encantado com aquela atitude e percepção, e fui seguir o conselho dela: troquei de profissão ainda na escola e fui estudar cenografia e indumentária, e me formei. 

“O colégio que era um celeiro de artistas onde meu pai me matriculou, desejando que eu me tornasse um artista”.

Então a sra. Marie Louise Nery foi a sua primeira inspiração e sua mestra?

A Marie Louise Nery foi a minha grande mestra sim! Ela modificou os meus caminhos nesse sentido e toda a premiação que eu fui candidato, tudo por merecimento, eu dediquei a ela e a Fernando Pamplona⁷, outro grande mestre na minha carreira.

Eu tenho tudo organizado da trajetória da Marie como artista no Brasil, até por conta da Exposição (Teatro Tablado/2007 – MASCARADOS), que foi uma exposição de abrangência ampla que pegou todos os setores nos quais Marie participou como artista: ilustrações para livros, cenografia para Ballet, cenografia para ópera, cenografia para teatro e figurinos para todos esses setores, além do carnaval e cinema. Enfim, ela foi uma artista completa e uma grande desenhista. 

Eu aprendi a modelar roupas de época com ela. Marie sempre foi muito exigente e eu tive a sorte e a felicidade de ter sido aluno e ter sido assistente dela, e depois quando eu fiz o concurso para ser professor na UFRJ – isso já há 32 anos – eu vim ser até chefe da Marie Louise Nery e da Rosa Magalhães⁸, dos meus mestres. Nos tornamos parceiros no ensino, do qual me orgulho muito.

Então eu fui mobilizado e tocado para o caminho das artes por conta do desejo do pai e nesse momento, dentro da escola de Belas Artes, ter encontrado os meus parceiros na vida que foram Abelardo Zaluar⁹ e Lygia Pape¹⁰ – que foram os meus professores de desenho e cor – Rosa Magalhães e tantos outros como Cláudio Moura e o grande mestre também na cenografia que foi Fernando Pamplona. Então eu fiquei muito envolvido e logo depois fui chamado pela Beth Filipecki¹¹ – que foi a minha professora de figurino – a trabalhar na Rede Globo.

Então, as minhas primeiras experiências profissionais, foram trabalhando para Walter Avancini¹², nas minisséries de época ele que dirigiu e produziu para a TV Globo. Nesse momento eu já estava com os meus 19 anos e fui seguindo a carreira inicialmente na televisão, e depois comecei a trabalhar assinando cenografia e figurinos para o teatro. Logo tive a sorte de ser reconhecido como artista, na cenografia e figurino para teatro, sendo indicado ao Prêmio Shell e ganhando; e depois o meu destino bateu no set de filmagens a convite de uma grande amiga – que é a produtora Sílvia Ramos – e que me levou para o cinema.

Aí eu comecei a trabalhar na Casa da Gávea e fiz vários espetáculos. Os sócios, Paulo Betti e Cristina Pereira, me convidaram para fazer um grande espetáculo, e eles também convidaram o Domingos Oliveira¹³ para ser o diretor. Esse espetáculo se chamou O Inimigo do Povo, e dali então, eu comecei a trabalhar com o Domingos e nas diversas obras que ele propunha no teatro, nos shows e finalmente no retorno dele para o cinema! Fizemos muitas coisas no cinema juntos…

“Marie Louise Nery: minha mestra na UFRJ e na vida!”

Qual foi o seu primeiro trabalho de relevância nacional? E internacional?

Eu creio que foi o trabalho que eu fiz de criação para uma peça produzida na Casa da Gávea, que foi Dona Rosita, a Solteira, um projeto da Cristina Pereira para o centenário do García Lorca. Nós fizemos um espetáculo muito sensível, utilizando uma cenografia com objetos que tinham sido rejeitados. Eu catei objetos do lixo, eu fui nas praias, nas praias da ilha do Governador, na Ilha do Fundão, recolhi madeiras, restos de móveis, de objetos… porque essa personagem – a Dona Rosita – ela é abandonada, e ela espera um amor que não retorna, e aquilo vai, digamos, impregnando os espectadores por essa narrativa.

Então, na Casa da Gávea, eu fiz uma cenografia que avançava para o foyer e tinha uma estufa de rosas, porque um dos personagens – que era o tio da Rosita – ele cultivava rosas raras e também pés de oliva; não por acaso, o García Lorca foi assassinado embaixo de um pé de oliveira pela ditadura de Franco, e eu fiz toda a construção da cenografia e dos figurinos de materiais reaproveitados. Eu não comprei nada! Eu fiz tudo catando coisas nas ruas, nessas praias, objetos que tinham sido rejeitados pela sociedade, e o quarto da Rosita era todo impregnado de ninhos de pássaros abandonados que eu encontrei pelo caminho.

Eu ganhei todos os prêmios na época! Prêmio Shell, no Rio de Janeiro, de Melhor Cenografia e Figurino em São Paulo. Foi um sucesso extraordinário! Viajamos muito com esse espetáculo, e ele também é um espetáculo emblema para mim, na minha carreira! Seguidamente, depois, eu ganhei outros Prêmios Shell com a cenografia da peça Esplêndidos, do Jean Genet, e por aí vai. Mas aquele foi um start para uma visibilidade, para essa minha obra múltipla, de apelos múltiplos. E a obra internacional, eu fui curador (2007 a 2015) da Quadrienal de Cenografia em Praga¹⁴, que é o evento maior da cenografia do mundo! Porém, em 2011, nós ganhamos o prêmio máximo com um projeto expográfico e a curadoria da seção de países, e o prêmio se chama Golden Triga, a Triga de Ouro, que é o prêmio maior de cenografia no mundo! É mais que um Oscar de cenografia, porque é um evento que ocorre de quatro em quatro anos e estão lá todos os maiores cenógrafos de 60 e tantos países. Teve edições que chegou a ter 72 países participantes.

Então, em 2011, nós ganhamos o prêmio máximo e eu ganhei então o Golden Triga pelo projeto expográfico e curatorial. Então esse foi um projeto que me abriu as portas para o mundo e dali eu fui convidado a dar oficinas de cenografia em Portugal, na Inglaterra, na França…. Fui convidado a participar de encontros dos grandes cenógrafos do mundo por conta de ter participado desse período de 2007 a 2015, participando das quadrienais. Então foram essas duas obras emblemas. Elas são a produção nacional e a produção internacional. A Quadrienal de cenografia nasceu em 1959, na Edição da Bienal de Arte de São Paulo, onde teve uma sessão dos artistas plásticos que colaboraram para a cenografia de teatro. A Marie participou dessa Bienal e ali também o grande cenógrafo Josef Svoboda – tcheco..

A partir desse encontro de artistas plásticos, que atuavam na cena, se fundou a ideia de se fazer uma quadrienal de cenografia e que foi ocorrendo de quatro em quatro anos até hoje na República Tcheca, e isso é o grande evento de cenografia no mundo! É do porte da Bienal das Artes de Veneza, da Documenta em Kassel¹⁵, dos grandes movimentos das Artes que ocorrem mundialmente.

“Dona Rosita, a Solteira. Produção da Casa da Gávea”.

“Quadrienal de Cenografia de Praga 2011, recebendo o prêmio máximo na cenografia: The Golden Triga”

O que é motivação para o Ronald e como ela influencia na sua criatividade?

Eu acho que essa natureza enciclopedista, que me faz reviver a vida o tempo todo – estudar e estudar… ler e ler – me traz a capacidade de ressignificar o que me fascina na cenografia e no figurino. É poder lidar com os conteúdos. Assim nós não faremos e nem reconstituiremos só casas de bom gosto ou casas assim exuberantes, de arquiteturas abastadas.

Reconstituir ou recriar ou inventar a casa do homem comum, ou daquele homem que sofre, ou mesmo de pessoas com questões graves de caráter ou de saúde comportamental, nos traz – eu acho que – um modo de um não julgamento desses tipos de personagens, de personas que nos humaniza. Eu acho, então, que essa profissão que eu abracei me traz esse renascer o tempo todo. Então esse é o grande estímulo que eu tenho e que eu trouxe da profissão para a minha vida, entende? E eu consigo, digamos, exercitar isso de um modo pleno por conta do ensino.

Eu sou cenógrafo, figurinista e diretor de arte, todos no teatro, no cinema, nos musicais, mas também nos projetos expográficos, pois eu também faço projeto para grandes exposições. Está em cartaz no Paço Imperial, uma exposição extraordinária que vai para Portugal depois, que é sobre o patrimônio imaterial do Iphan no Brasil e também em Portugal, da instituição que defende o bem patrimonial português, e é uma coisa extraordinária, porque tem lá diferentes aspectos da nossa cultura, da ciência popular, como manipulação dos mamulengos, como a feitura dos carros de boi,  como a agricultura, que os indígenas trazem para o seu cotidiano na pintura corporal, na confecção de objetos dos trajes de diferentes culturas europeias – que foram ressignificadas no Brasil, como as Cavalhadas¹⁶.

É uma exposição extraordinária que vai reabrir assim que for autorizado os Museus e Casas de Cultura poder permitir a presença da população nesses lugares. Mas eu creio mesmo, fortemente, que o que me estimula, o que me motiva, um grande fator de motivação, é esse aspecto investigativo que a própria profissão nos traz desde sempre. Estudar sempre e investigar: é uma curiosidade pela nossa cultura, pela cultura do outro, e que nos faz promover um ofertório, oferecer aquilo para o outro que é virgem naquele conteúdo, ou que mesmo que ele já tenha tido contato com aquilo, mas sob um aspecto que possa parecer a ele inovador para o espírito e para os olhos.

“Formar os meus pares onde leciono cenografia, na Escola de Belas Artes da UFRJ”.

Como não deixar a paixão pelo seu ofício morrer? O que faz brilhar os seus olhos a cada dia nessa estrada?

É encontrar as pessoas. Formar os nossos pares. Isso para mim Lis, é algo fascinante! Eu me dedico às pessoas, sabe? Assim como eu recebo a ajuda dos meus grandes pares. Eu vou te dizer muito sinceramente: eu jamais direi não a você, jamais direi não ao Pedro (Pedro Vasconcelos), jamais direi não aos meus grandes amigos nessa estrada, como o Paulo Betti e a Cristina Pereira, aos meus alunos.

Muitas vezes são pessoas que estão numa situação inequívoca ou algo aconteceu, mas pode ser um telefonema a qualquer hora do dia ou da noite: eu vou atender aquilo que estiver ao meu alcance e vou atender mesmo! Eu acho que essa ideia do ofertório é o que nos faz formar essa aldeia extraordinária e nos reencontrarmos em momentos tão diversos, e sempre com encantamento. Por mais que eu tenha tido problemas assim, de saúde, é isso que me dá um gás para poder sempre estar numa atitude de ofertório, de oferecer, ofertar! Isso para mim é fascinante! Formar os nossos pares, reconhecer os nossos pares, principalmente nesse momento de isolamento, enfim, é para mim uma questão que ultrapassa o tempo.

Há quantos anos estamos juntos, em diferentes momentos, em diferentes perspectivas, Lis? Para mim é fascinante! Para mim isso nos faz eternos enquanto duramos! E a nossa profissão, por mais que a gente, digamos, retrabalhe um texto já trabalhado com outros diretores, algo novo vai-se “startar” ali, e é nesse sentido que eu percebo o encontro em sala de aula, o encontro na vida profissional, com pessoas mais novas e que tem novos códigos de comunicabilidade, que possa parecer talvez, inicialmente, uma não comunicabilidade, mas é uma comunicabilidade a um modo, e o que nos faz iguais a todos é a obra que nos une. 

Porém, diante da obra, daquela dificuldade e por mais, digamos, uma suposta soberba que o jovem possa parecer ter, ele internamente sofre. Ele tem inseguranças, ele tem lá as suas inquietudes que precisam ser, digamos, tocadas… tocar naquela sensibilidade, para que possa se desprender daquilo e alcançar uma potência como artista, como pensador e como criador. Se não a gente só vai viver de embates e de conflitos, e os embates e os conflitos também nos fazem progredir, mas não pode ser só fechamento de porteira. Acho que não é para os nossos caminhos: já temos muitos com essas questões políticas nesse sentido. 

“Aprender com a cultura popular, como nessa exposição que fiz para o Patrimônio Imaterial do Iphan”.

Pandemia. Até aqui 07 meses. Ela influenciou no seu trabalho, no seu criar, na sua forma de olhar? Acredita que vai existir um Ronald antes e um depois desta fase?

Primeiro eu me sinto mais forte fisicamente, porque eu – eu já praticava muitos exercícios físicos e tal – passei a fazer exercícios físicos todos os dias com o meu personal via vídeo conferência, e comecei a cuidar melhor da dieta e de tudo, porque tinha que fazer a própria comida e ia poucas vezes na rua para escolher legumes e frutas, e tinha que lavar tudo aquilo. Pessoalmente é um olhar para aquilo que vai para dentro de você. Então eu me beneficiei muito. Meu pai me ensinou a costurar e a cozinhar, e a passar roupa também. Ele falou “não quero ninguém mal alimentado, mal trajado”, enfim, era o instinto da sobrevivência pela boa aparência.

Nesse sentido, eu passei também a cuidar melhor da saúde, ficar atento, assim, nas questões, a observar melhor o próprio corpo, as respostas do corpo no cotidiano e felizmente eu pude voltar a nadar há cerca de três semanas para cá, porque a piscina da academia foi liberada e eu tenho um horário único só com o treinador: só eu frequento a piscina naquele horário. Enfim, facilitou. Porém, no cotidiano, eu passei a ler livros. Eu sou dono de uma grande biblioteca que eu consumo por conta da produção. Mas eu passei a descobrir coisas que eu até tinha esquecido que eu tinha. Então fui relendo, fui passando a vista em cada seção da biblioteca, na parte dos costumes, na parte do folclore, na arte popular, na teoria da arte, na filosofia e agora estou chegando na parte de cinema e direção de arte. Estou relendo os livros, só que eu estou tendo descobertas incríveis, fazendo as anotações como pesquisador, e tal, e vendo muitos filmes, principalmente os clássicos – cada dia, cada noite, eu vejo um filme assim.

Eu revejo também. Às vezes eu pego e revejo toda obra de um determinado cineasta e até de culturas diferentes. Agora eu estou dedicado a ver filmes das cineastas, das mulheres de toda a parte do mundo, dedicadas a arte cinematográfica… para que assim pudesse abrir os meus olhares, né? Eu nesse exato momento tenho pesquisado a obra da Shirin Neshat¹⁷, que é uma mulher de origem iraniana e que desenvolveu sua vida artística na Inglaterra. Se tornou uma grande artista que faz, que mistura cinematografia com instalação de artes visuais. Então, eu creio, esse período de confinamento, na verdade, ele me abriu para o mundo.

Eu não me confinei. Só estou… eu fiquei quieto no meu canto, porém, eu andei pelo mundo de um modo muito… fui muito mais longe do que de fato viajando a trabalho ou viajando a passeio. Não me sinto angustiado nesse momento. Sinto falta de estar presencialmente com os meus pares… e também com os ímpares…, porém… sinto falta realmente. Mas procuro sempre perceber se tem alguém que está com uma inquietude, com uma não tranquilidade e dedicar uma palavra, mandar alguma mensagem, ou de mandar um livro, assim de ter alguma conectividade com as pessoas que me preocupo temporariamente nesse momento. Esse sentido para mim de trilhar caminhos longos, estando confinado, é uma marca. Eu creio que vou sair modificado, de fato, desse confinamento. Quando puder realmente ir fisicamente para bem longe, acho que estarei melhor equipado.

Eu sou um homem muito organizado. Então eu tenho um acervo de trajes, de roupas e eu consegui deixar ele assim, completamente catalogado por épocas; e também eu necessito para o trabalho de direção de arte de cenografia, de um ferramental. Então, o que que eu fiz? Eu peguei parte do meu apartamento – eu tenho um acervo de ferramentas que eu fui organizando e sabendo que iam ter novos protocolos – e eu comecei a fazer assim “kits” para os meus assistentes e pessoas que trabalham comigo, porque eu precisei, por exemplo, ir ao Paço Imperial para cuidar de determinadas obras, pois teve um temporal lá e parte da sala de exposição foi invadida pelas águas pluviais! Então eu precisei ir lá e fui bem equipado e tudo: o que eu já tinha pensado e pus em prática. Eu fiz caixas de ferramentas com kits separados, higienizados com roupas, máscaras, face shield e tal, e roupas protetoras que eu já tinha me organizado para isso.

Como eu acompanho os protocolos que ocorrem nos sindicatos, nas organizações profissionais na França, Espanha, Inglaterra, Alemanha e na própria República Tcheca, por conta do meu trabalho como curador da Quadrienal de Cenografia em Praga, eu tenho esses contatos desde que eu iniciei esse trabalho há 17 anos. Então, vinculado a essas instituições, eu fui lendo os protocolos que eles têm aplicado ao cotidiano profissional, e eles também sofrem como nós – de não estarem trabalhando – e quando precisa estar diante de um acerto de alguma obra, de fazer alguma filmagem – e essa realidade é toda muito nova – o que tem sido assertivo, eu tenho lutado para poder adotar um protocolo. Então, eu sou muito “linkado” nas questões profissionais que acontecem nas organizações profissionais do mundo, para poder trazer isso para a gente também, para o nosso cotidiano.

Então isso eu sempre faço: eu troco com os meus assistentes – com quem eu trabalho diretamente que é o Márcio, a Caroline, a Leti (Letícia), o Ricardo –  e eu passo para eles os novos protocolos que nós estamos seguindo, por conta de termos que em prática ter ido ao Paço Imperial e depois para o Teatro Tereza Rachel, e seguindo os protocolos. Enfim, a gente pode se adaptar com o menor dano, com menor aflição, com menor grau de angustia, por conta de já vir estudando isso, entende? Não ficar assoberbado, assim, muito quietinho no canto, não vai ajudar a gente! Precisa olhar para as pessoas que estão experienciando isso, para quando houver uma convocatória de fato, como ocorreu conosco, ir para a batalha com maior segurança, né? E isso foi o que me ocorreu, entende? Mas por conta dessa minha natureza muito organizada. Assim, eu sou muito organizado para me sentir livre.

Eu não gosto de procurar, passar horas procurando um caderno de anotações ou alguma coisa. Eu pude também consertar em casa ar condicionado, tomadas, trocar lâmpadas, preparei melhor o escritório para receber os assistentes com distanciamento, cada um ganhou uma mesa aqui.  Então pude “andar”, porque os convites e os contratos já estavam firmados – estão só suspensos pelo tempo – mas vamos retornar, né? Então a gente precisa ter um preparo para isso. O que tem sido mais dificultoso são as aulas, porque os alunos estão com um grau maior de… assim… fragilidade, sabe? Então, após o término da aula, eu preciso individualmente tentar ter um encontro com cada aluno, uns quinze ou vinte minutos de modo mais particular, o que ocorreria também em sala de aula, porque eu poderia me dedicar assim algum tempo durante a aula presencial, e precisa ocorrer isso também na aula online, sabe? Vamos ver de modo mais particular suas questões, peço para mostrar suas maquetes, as plantas e por aí vai… e troca de conteúdo, né? E até que isso possa imprimir um ritmo produtivo, tem sido uma grande aprendizagem. E a gente depende muito da tecnologia e a conectividade é frágil: às vezes, você está numa situação onde você tem uma boa conexão e o aluno não tem, e vice-versa.

Então, eu já logo inicio a aula dizendo “…não vamos ficar zangados se acontecer de termos que interromper. Vamos fazer um intervalo de dez ou quinze minutos, e vamos tentar nos reconectar e aí seguimos! Vamos tentar encarar essas questões de tecnologia –  que é frágil – assim como intervalos”. As aulas não são tão longas quanto eram no presencial, porém, elas são mais frequentes, num maior número durante a semana. E a gente vai fazendo ajustes. É tudo “cada dia é um dia”, né? São novas perspectivas.

Quanto aos longas que eu estou trabalhando, existem os prazos que devem ser cumpridos, por mais que estejamos em confinamento, em quarentena e tal. Em algum momento tem que colocar em prática, pôr o filme para rodar. O que estamos estudando, é como há uma variedade de locações, se a gente não pode, digamos, adaptar. No cinema, visualmente, nós mentimos e iludimos muito! Então, aquilo que é uma Mata Atlântica, poderá se tornar uma floresta amazônica. De que modo, sabe? Ou então, se nós temos que retratar um Quilombo, será um lugar que é um Quilombo? Será que não conseguimos uma região ribeirinha, que pode se assemelhar mais próximo de nós, e aí fazer algo cenográfico? Mas com todo o cuidado e tudo mais. A questão é que devemos evitar o encontro das massas, né? A aglomeração. E assim, é isso que a gente precisa evitar e estudar como iludir, como não aglomerar, fingindo aglomerar visualmente. Tem até um estudo assim, mas todo esse novo protocolo, creio que nós vamos conviver com máscaras por ainda um bom tempo, mesmo tendo vacina. Isso, eu acho. E a nossa maior questão é o trópico, o calor.

Só na questão dos novos protocolos, nas produtoras de cinema, o que eu vejo deles é que há uma preocupação com os novos custos. Como as produções são editais dos anos de 2018 e 2019, os projetos teriam que ser colocados em prática em 2020, até parte de 2021. Os custos com os novos protocolos não estão previstos na planilha. Então, tem que cortar a equipe para não aglomerar, e também para poder dar conta destes novos custos. Precisa pedir autorização para gastar com equipamento médico, com equipe médica que possa acompanhar full time os processos de produção. Então, são coisas que são grandes preocupações para os produtores, né? Também com o ir e vir, sobre os transportes: aquele carro que é contratado, ele foi de fato higienizado? Será que naquele turno, no dia da folga, aquele motorista está fazendo um extra e usando o carro sem muita segurança? São muitas questões que passam pela produção. Assim, eu mesmo combinei com os meus assistentes, que quando a gente precisar ir para o set de filmagem, eu prefiro ir no meu carro que eu higienizo todo dia e ainda falei “vamos fazer o seguinte: a gente faz uma pequena quarentena e vocês ficam aqui em casa, que é grande, e eu aí vocês se hospedam aqui por um tempo, durante esse período de filmagem, que fica mais prático e nos sentimos seguros”. Até porque a gente tem que estudar formas (na produção) de se sentir seguro, não só para si, mas também para os nossos familiares.

Existe a situação de que teremos que construir tudo com um menor número na equipe, entende? No caso da direção de arte, será um menor número de costureiras, menor número de camareiras, menor número de contrarregras… será um menor número para tudo! Quem estiver no trabalho vai acumular essas funções. Entendi que isso é uma coisa, algo como, que a gente vai ter que dar conta daquilo com um menor número na equipe, e que de fato a gente vai ter que dar conta sim! Terá que ser feita adaptação em roteiros, em criação, em direção, em texto. Tudo deverá ter uma revisão, até não comprometer a própria qualidade da obra, da obra artística… enfim. Mas eu creio sempre que é um caminho. Eu penso sempre no neorrealismo italiano, porque se filmava durante a guerra, e o neorrealismo era feito assim: você tem uma câmera, está tendo uma guerra lá fora nas ruas, nós vamos fazer esse filme durante essa guerra, e no momento em que não está tendo bombardeio, a gente vai fazer essa cena, com quem estiver passando na rua. Você vai vir com a sua roupa, a roupa que você está no seu cotidiano e o personagem vai ser você com a sua roupa. E assim era feito o filme. Os filmes eram feitos assim, entende? Tinha essa acuidade. Então o neorrealismo italiano era feito em território de guerrilha: era uma câmera na mão e uma equipe se desdobrando! Veio a influenciar o nosso Cinema Novo no Brasil, influenciar o modo de filmar do Domingos de Oliveira, o modo de filmar de todos que participaram do Cinema Novo, desde Glauber¹⁸. Todos os que participaram do movimento do Cinema Novo são influenciados pelo neorrealismo italiano. Nós passamos por um momento de ditadura terrível, que havia censura, havia tanta coisa, e aquilo era feito assim num estreitamento de situações. Se juntavam grupos de cineastas, onde todo mundo era cineasta, mas ele vai fazer o som, ele vai fazer produção executiva o outro vai fazer o roteiro e aí eles trocavam, tanto é que muitos dos filmes no Cinema Novo desse momento, você vai ver pessoas que vão te surpreender: ele assinava o som do filme, no outro ele fez câmera, ele dirige o filme do outro… E assim, isso é uma coisa muito rica desse momento. Fazer cinema na década de 60 dentro da estética do Cinema Novo, vem dessa coisa difícil de limites. Esses nossos limites da realidade de hoje, nós vamos compreender e fazer algo, e vamos continuar fazendo.  A questão é que a gente não pode se encontrar, né?  Isso fisicamente.  Eles ainda podiam se encontrar, mesmo com medo, mas ainda se encontravam.

“Fui acolhido pelos meus livros: são velozes veículos de transporte num longo confinamento!

Você também é professor. Ensinar é uma arte, acredito eu. Como você trabalha com os seus alunos e compartilha com eles o seu conhecimento, com toda a dificuldade que um professor encontra no sistema de ensino desse país, país esse que não valoriza e não incentiva a Cultura? Como os motiva a seguir?

Bom…. Eu já trabalhava no mercado, primeiro na TV com o Walter Avancini, Luiz Fernando Carvalho¹⁹, Daniel Filho²⁰, e tinha começado a atuar no teatro, e a Rosa Magalhães me sugeriu assim: “… olha, vai abrir vaga na UFRJ. Você não quer fazer o concurso para vir dar aula lá conosco? ” Eu tinha na época 27 anos e aí eu pensei “… poxa, mas será que eu vou conseguir conciliar tudo? ”  Mas aí eu refleti “… mas os meus Mestres, foram meus Mestres e sempre atuaram muito no mercado de trabalho; então acho que eu vou tentar também” e fiz o concurso! Estudei muito! Eu estava fazendo novela na época e ficava estudando dentro do estúdio. Sabe, assim, foi super difícil, mas eu tirei o primeiro lugar no concurso! Aí eu fui e comecei a lecionar, e eu tive uma vontade de oferecer aos alunos uma melhor condição nas instalações e em tudo.

Então eu fui pesquisar dentro da Universidade, que setores poderiam me oferecer melhor mobiliário. Se eu me dedicasse a determinada pesquisa e conseguisse uma verba para a pesquisa, se através dessa pesquisa não iria melhorar os equipamentos, sabe? E conseguir bolsa para os alunos. Aí depois eu comecei, e fiz uma reforma e transformei uma das salas em Teatro: construí tudo com os alunos com uma verba que eu obtive com a Universidade, e depois eu fui melhorando as salas de aula dos meus professores, dos meus Mestres, fazendo reforma.

Eu sabia que tinha uma equipe de restauro, assim, das questões hidráulicas, eu consertava os canos, se sabia que alguém não queria mais uma máquina de lavar – e a máquina estava funcionando bem – eu pagava o frete, levava para escola e instalava para o pessoal do figurino poder tingir na máquina de lavar, e lavar os trajes após os ensaios. Daí a gente começou a ter um cotidiano pensando na melhora, uma dedicação e um mergulho imenso para isso. Então eu vejo assim, que por mais que pareça o caos no ensino, é possível ser positivo em qualquer momento! De fato, nós vivemos algo que é muito grave, que é o Ministro da Educação ofender professores, que é outras autarquias da instituição Federal ofender pessoas ligadas ao ensino público. 

O que acontece assim, por exemplo, eu vejo na Instituição em que eu leciono. Em 2016, o ano em que a escola fez 200 anos – a nossa escola tem 200 anos! Ela foi fundada pela missão francesa por Dom João VI. Nesse ano celebrativo, a escola pegou fogo num incêndio. Há investigações ainda, mas o incêndio ocorreu num domingo, e no domingo não há ninguém que frequente a escola, entende? E o incêndio começou na seção de finanças. E domingo, quem é que iria saber que a escola estava pegando fogo, lá numa ilha deserta? Até chegar os bombeiros… A escola, então, teve que ficar espalhada pelo Campus Universitário.

Nós então começamos a dar aulas em algumas salas da escola de Letra, outras aulas nas salas da escola de Arquitetura, outras na escola de Engenharia, outras na escola de Música. Nós passamos a não ter uma única sede. Mas eu creio fortemente que eu dou aula até debaixo de uma árvore! E é como agora: eu estou dando aula, eu estou na minha biblioteca, no meu escritório e o aluno está sentado na sua cozinha. Tem uma aluna que mora em Vigário Geral e ela está na laje da casa da avó dela. De vez em quando eu ouço barulho de bala (tiros). Então, cada um está na sua condição que se apresenta e está podendo ter a aula.

Então, a gente como guerreiros, sobrevive às “impactabilidades”. E eu acho que essa questão da aula online, traz essa ideia forte que o ensino é sem fronteiras! Eu sou um educador. Então o que faz me trazer, me significar, ser um educador, é a presença do aluno, que é aquele que tem fome para a aprendizagem e nas suas condições. Por mais que eu seja um artista muito produtivo e muito ocupado, eu sou um educador e eu me dedico ao ensino. E eu amo ser professor! E eu não sou professor por uma ausência de uma presença no mercado, tipo “…não sou mais artista, então vou dar aula”. Não! Eu já era artista e quis também dar aula, quis lecionar a aprendizagem da minha profissão. E eu adoro o encontro! Acaba o semestre com novos grupamentos, com novos olhares, e eu acho que eu tenho um modo muito rico de tornar cada aluno produtivo. Cada aluno tem a sua natureza particular: alguns estão mais inquietos, outros fazem birra. Mas não cabe a mim criar o julgamento de cada uma daquelas pessoas. O que me faz vibrar é tornar aquela pessoa produtiva no estado em que ela se encontra.

Às vezes, sei lá, um rapaz levou um “pé-na-bunda” de uma namorada, está super angustiado, mas eu preciso tornar ele produtivo como criador E é isso que me faz ressignificar nossos encontros e o ensino. Percalços acho que teremos assim por muito tempo, principalmente no governo aonde o Ministro da Educação ofende o professor como recentemente aconteceu. O outro, que fugiu para os Estados Unidos, porque ele iria ser preso, ele foi uma das piores pessoas ligadas ao ensino público! Eu não entendo o porquê que a pessoa deseja ter uma função maior, numa autarquia como no Ministério da Educação, e não se sente, digamos, um ser acolhedor para aquela comunidade de profissionais, que não são só professores, porém pesquisadores, funcionários, cientistas…. Muitos estão envolvidos em diversas áreas do ensino, que no caso tem as artes, mas também tem na área da saúde, da tecnologia, do ensino público. Porque muitas escolas das instituições federais, tem o seu colégio de aplicação, que faz com que o “aluno professor”, o aluno que deseja ser professor do ensino médio, do preliminar, ele possa ter uma prática em sala de aula de uma escola de fato de verdade. Então, comumente, as escolas de aplicação das Universidades Federais, elas são lugares de excelência, e é o ensino público e gratuito, onde as matrículas são por sorteio.

Então ali, aquelas crianças, elas vão ter o melhor do ensino universitário dos pesquisadores das universidades, dedicados às primeiras séries, até que o estudante possa fazer prova para uma graduação, como é atualmente o ENEM. Então, nós temos assim, muitos dissabores, mas o professor ele não desiste! Ele leva muita paulada, Lis…. E nós não desistimos! E isso nos faz mais fortes! Tem momentos que assim… eu ouço às vezes, os meus colegas em reuniões, e vejo eles assim… “panicados! “ Como teve essa coisa, essa novidade de aula online, “como é que vai ser isso? ” E às vezes, em reunião de departamento – que também é online – vem um cachorro na tela e assim, derruba o telefone; aí vem o neto ou um sobrinho e apaga a luz e dá um berro! Olha, eu falei “… vocês precisam fazer compreender que na reunião de departamento, o cachorro não tem matrícula na faculdade, eles não são funcionários da escola.

Então vocês precisam ter o seu lugar sagrado! Não adianta…. Vocês vão para um canto da casa e a família então, que fique no claustro um par de horas! ” É preciso que o professor também se faça valorizar dentro da sua própria casa! E isso tem que ser sagrado!!! Tem que ser algo assim, que seja um emblema: “vou ter reunião com os meus colegas professores”. E nisso, precisa entrar em silêncio total, para que se possa respeitar que naquela casa há um professor!! Então eu creio, que a minha experiência como professor, minha atividade como educador, ela passa por essa coisa de “cíclica”: de passar por percalço, ganhar fôlego e seguir! Tem uma coisa Lis, que é impagável: é você ver o progresso de um aluno! Isso é impagável!!! É mais que um prêmio na profissão como cenógrafo… é impagável!!! É uma coisa para mim… eu fico comovido, emocionado, quando eu vejo o aluno ter uma descoberta dentro da prática de ensino. Reconhecer que ele cresce e evolui através de uma prática de sala de aula, isso para mim é um troço incrível… uma premiação, e eu fico encantado quando ocorre isso, e ocorre muitas vezes!

“O que importa é o percurso, não a chegada! Então seja generoso e forme suas tribos no caminhar”

Ronald Teixeira por Ronald Teixeira…

É um homem muito amoroso, porém, assim, eu por muito tempo usava uma frase como descrição da minha personalidade, como descrição de um perfil, uma frase de brincadeira da minha geração quando se tem bastante personalidade para seguir os caminhos. Se dizia assim: “… olha, eu não sou filho de pai assustado”. Então eu não sou filho de pai assustado! Eu sou guerreiro! Domingos Oliveira, meu grande amigo nas artes, costumava me chamar de “… ele é um veado Valente”.  E as duas palavras, para mim, são um grande elogio! Mas eu diria que, como numa canção do Roberto, eu sou uma flor que tem espinhos.

Mas eu sou uma flor…

“Uma flor que tem espinhos”

REFERÊNCIAS:

1 – Ronald Teixeira:
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa255189/ronald-teixeira
2 – Nelson Pereira Dos Santos:
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa370579/nelson-pereira-dos-santos
3 – Newton Cavalcanti:
https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10139/newton-cavalcanti
4 – Rubem Grilo:
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1921/rubem-grilo
5 – Marie Louise Nery:
http://portais.funarte.gov.br/brasilmemoriadasartes/acervo/cenario-e-figurino/biografia-de-marie-louise-nery/
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/05/12/morre-na-suica-marie-louise-nery-considerada-a-primeira-carnavalesca-do-rio.ghtml
6 – Ingmar Bergman:
https://www.rosebud.club/post/13032020
7 – Fernando Pamplona:
https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/tecap/article/viewFile/10224/8010
https://oglobo.globo.com/rio/fernando-pamplona-um-militante-contra-colonialismo-no-samba-10193854
8 – Rosa Magalhães:
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2020/noticia/2020/01/23/rosa-magalhaes-completa-50-anos-de-sapucai-e-busca-9o-titulo-ganhar-e-muito-bom.ghtml
https://www.uol.com.br/carnaval/2020/noticias/redacao/2020/02/18/conheca-a-trajetoria-de-rosa-magalhaes-a-professora-do-carnaval-do-rio.htm
9 – Abelardo Zaluar:
http://www.culturaniteroi.com.br/blog/?id=211&equ=mapadeartistas
10 – Lygia Pape:
https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa950/lygia-pape
11 – Beth Filipeck: https://www.mulheresdocinemabrasileiro.com.br/site/mulheres/visualiza/654/Beth-Filipecki/5
12 – Walter Avancini: Perfil Completo
13 – Domingos Oliveira:
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa109156/domingos-oliveir
14 – Quadrienal de Praga:
https://pqbrasil.org/quadrienal-de-praga
https://seer.ufrgs.br/cena/article/viewFile/97085/56486
15 – Documenta em Kassel:
https://www.documenta.de/
https://www.dw.com/pt-br/kassel-e-a-documenta-um-hist%C3%B3rico/a-571335
16 – Cavalhadas:
https://brasilescola.uol.com.br/folclore/cavalhadas.htm
17 – Shirin Neshat:
https://www.thebroad.org/art/shirin-neshat
https://www.instagram.com/shirin__neshat/?hl=pt-br
18 – Glauber Rocha:
https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10814/glauber-rocha
19 – Luiz Fernando Carvalho: http://luizfernandocarvalho.com/
20 – Daniel Filho: https://memoriaglobo.globo.com/perfil/daniel-filho/

Lis Maia

Lis Maia

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