QUANDO NOSSOS MESTRES PARTEM:

Por Lis Maia

08/11/2021

QUANDO NOSSOS MESTRES PARTEM:

A arte e o lidar com a sensação de perda e a impossibilidade do luto dentro da pandemia.

(Autor especialmente convidado para essa matéria – Joel Duarte Junior)

Uma das mais estranhas realidades que a pandemia de COVID-19 nos trouxe, tem o luto como centro de atenção. Tenham sido perdas em nossos grupos de amigos ou conhecidos, em família, ou a perda de grandes ídolos, temos sido bombardeados por acontecimentos tão numerosos, frequentes, inusitados e impactantes, que não temos tido espaço para assimilá-los de forma positiva e sadia.

Ao longo da vida aprendemos a perder. Desde a infância somos deparados com situações que nos ensinam sobre isso. Nossos primeiros passos nesse entendimento vêm junto das nossas primeiras percepções da realidade externa a nós. Poderíamos mesmo, dizer que nosso primeiro trauma nesse sentido é dado logo no momento do nosso parto. Ao sermos trazidos ao mundo, sofremos nosso primeiro estresse de privação, nosso cérebro, embora ainda sem compreensão lógica do fato, sente que perdeu seu lugar seguro, seu aconchego e foi trazido a uma realidade desconhecida, bruta, não familiar e inóspita. E choramos.

Ao longo da primeira infância, já experienciamos nossas primeiras perdas: o alimento ou o brinquedo que não temos quando queremos, a ida dos pais ao trabalho, ou eventualmente a morte de um animalzinho de estimação. Com o passar do tempo, vamos sendo confrontados com acontecimentos cada vez mais próximos e profundos, cada vez mais relevantes e doloridos, com conhecidos, amigos, parentes. A cada passo, sentimos, em níveis maiores ou menores, a falta e o vazio. Assim, a dor da ausência vai se tornando, pouco a pouco, mais familiar e sustentável. É um “calejamento” sensorial e emocional imprescindível para nosso amadurecimento e estabilidade psicológica, primordiais para a continuação da caminhada do viver. É o nosso aprendizado do processo de luto.

O luto é uma emoção natural, universal mesmo, que nos torna humanos. Por ser intenso e desconfortável de sentir, muitas vezes tentamos encontrar maneiras de evitar vivenciar a imensidão da emoção por meio de distração, de ocupações, de nosso sistema de crenças, religião, experiências de vida. Muitas religiões e culturas têm rituais para reconhecer a dor e a perda durante pelo menos o primeiro ano após a morte. Não existe maneira certa ou errada de sofrer, é um processo individual e diferencial de cada ser humano.

Quando alguém morre repentinamente, nossa primeira reação costuma ser a negação, depois o choque, a confusão e a dor. Nesses casos podemos ficar com questões não resolvidas, como culpa, raiva, ansiedade, desespero e sensação de vazio. Somos afetados de forma física, social, emocional e espiritual.

Esse cenário fica ainda mais duro quando isso acontece em casos de pessoas que consideramos marcos em nossas vidas. E foi isso que aconteceu ao longo destes últimos 18 meses. O mundo das artes foi fortemente impactado pelas perdas de alguns dos seus maiores ícones, nos trazendo um sentimento quase que de orfandade, com a perda de inúmeros talentos, que deixaram para sempre suas marcas na cultura brasileira.

A presença dessas personalidades, tão marcantes ao longo de mais de meio século da história recente brasileira, praticamente dentro de nossas casas, através dos meios de mídia de massa, trouxe-nos a partir de uma sensação de familiaridade, um “entendimento” de conhecimento. Era quase como se fizessem parte de nossas famílias, dada a proximidade da inserção de sua presença em nossas salas de estar. Todos, em suas áreas, verdadeiros Mestres, modelos de conduta humana, ética e profissional. Exemplos de vida e cidadania, que os tornavam ainda mais próximos de nosso imaginário, aumentando ainda mais essa impressão de proximidade. Quem nunca desejou ter a coragem e o posicionamento do Paulo Gustavo, ou a felicidade matrimonial de Tarcísio e Glória?

Fomos marcados desde a infância, e ao longo da vida, por personagens como a Dona Hermínia de Paulo Gustavo, o João Coragem ou o Capitão Rodrigo Cambará de Tarcísio Meira, a Dona Benta de Nicette Bruno, Dr. Victor Astrobaldo Stradivarius Victorius I de Sérgio Mamberti, o “Seu” Perú (e grande parte das dublagens mais queridas como Popeye, Scooby-Doo, ALF, Gargamel e o Vingador, dentre muitos outros) de Orlando Drummond, Tio Maneco de Flavio Migliaccio e Shazam de Paulo José, e os primeiros programas de entretenimento e educação, desde o Capitão Furacão de Pietro Mário e a Turma do Lambe-Lambe de Daniel Azulay. E isso sem falar em Eva Wilma, Moraes Moreira, Arthur Xexéu, Aguinaldo Timóteo, Nelson Sargento, Dominguinhos do Estácio, Genival Lacerda e Aldir Blanc, todos personagens angulares na formação da nossa arte e cultura nacional. Infelizmente, estes são apenas alguns, entre os mais de 550 luminares que perdemos desde o começo deste momento sombrio. Perdemos referencias na área jurídica, literária, musical, educacional, jornalística, acadêmica, entre outras. Fomos ficando a cada perecimento, mais órfãos, mais pobres e menos afortunados sócio culturalmente.

Mas, tenham sido falecimentos pela COVID-19 ou não, de pessoas conhecidas ou não, todas essas passagens iam somando-se, num caldeirão de sentimentos confusos e inconclusos, e que geralmente acabaram transbordando, pontualmente, justo com cada óbito de um desses grandes ídolos. A comoção, no caso de Paulo Gustavo, por exemplo, que serviu de grande desafogo emocional para nós todos. Esses episódios tornam-se nossa chance de abrirmos a válvula de escape, sofrermos e chorarmos. Até em suas últimas participações no teatro da vida, eles continuaram nos ajudando a seguir adiante, uma das funções primordiais das artes. Muitos de nossos mestres se foram e o vazio é irremediável; mas resta-nos, em honra de suas memórias, e às de todos os nossos mais de 595.000 irmãos idos, seguir adiante, continuar a luta, combater o bom combate. Que se façam em nossas atitudes e ações, as suas. Que se façam em nossos sonhos e objetivos, os seus.

Para que possamos entender bem a profundidade desse assunto, gostaria de contar algumas de suas histórias, para sabermos quão grande é exatamente a perda de outros dos nossos extraordinários preceptores.

Flavio Migliaccio (4 de maio de 2020, aos 85 anos) Nascido na cidade de São Paulo, no bairro do Brás, foi um dos dezessete filhos de Domingos Migliaccio e Jandira Machado, entre eles a atriz e comediante Dirce Migliaccio, morta em 2009. Casado com Yvonne Migliaccio, e pai do jornalista Marcelo Migliaccio, Flávio iniciou a carreira atuando em peças de teatro na periferia de São Paulo, onde logo descobriu a sua veia cômica. Participou de um grupo de teatro da igreja de Tucuruvi, onde ficou por três anos, até chegar a ator principal e diretor. Como precisava ganhar dinheiro, teve que arrumar outras ocupações, trabalhando como balconista e mecânico. Em 1954, depois de fazer o curso de teatro do diretor italiano Ruggero Jacobbi, começou a carreira de ator profissional no Teatro de Arena. Seu primeiro papel foi o de um cadáver, na peça “Julgue Você”. Aos 25 anos, estreou no cinema em “O Grande Momento”, de Roberto Santos. Atuaria também em clássicos do cinema brasileiro como “Cinco Vezes Favela”, “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, “Terra em Transe” e “Todas as Mulheres do Mundo”. Flávio era conhecido pelo seu personagem Xerife na série de TV Brasileira “Shazan, Xerife e Cia.”, e pelo papel de Tio Maneco, na série exibida pela TVE. Na Rede Globo, destacou-se pelos trabalhos nas novelas “Rainha da Sucata”, “Perigosas Peruas”, “A Próxima Vítima”, “Vila Madalena”, “Senhora do Destino”, “Passione”, entre outras.

A morte de Flavio foi uma das mais traumáticas deste período e o meu primeiro grande baque. Poderíamos dizer, de forma consistente, que a causa foi desgosto. Seu corpo foi encontrado sem vida em seu sítio, na cidade fluminense de Rio Bonito. Ao seu lado, um bilhete dizia somente: “Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão de que foram 85 anos jogados fora num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje! – Flávio”.

Flávio havia ganho um processo contra a antiga TVE (sucedida pela ACERP – Associação de Comunicação Educativa Roquete Pinto), e que já tramitava na Justiça havia mais de vinte anos, por conta da destruição de quatrocentos capítulos da série “Tio Maneco”, que estrelou. A indenização seria pela perda do acervo e por danos morais. Já tinha ganho a causa, mas o processo estava na fase de cálculo do valor, por um perito. Segundo seu advogado, a ACERP pediu a anulação da ação.

Acredita-se que a soma de várias situações de incerteza e desespero, como o arrastar desse processo judicial, a pandemia, que vigorava num começo brutal e sem visão de solução, a situação e as atitudes político-sociais, teria criado um vórtice de depressão e desalento tal que ele já não via mais solução e alegria numa vida futura.

O ator Lima Duarte, com quem ele havia convivido e trabalhado ao longo de toda sua vida, divulgou no dia seguinte em um vídeo, que “entendia a atitude de Migliaccio”, lembrando os trabalhos que fizeram juntos e dos “momentos difíceis” durante o período da ditadura militar. Lima contextualizou aquele período, o comparando à situação política atual pela qual passa o país. “Agora, quando sentimos o hálito putrefato de 64, o bafio terrível de 68, agora, 56 anos depois, quando eles promovem a devastação dos velhos, não podemos mais. Eu não tive a coragem que você teve”. No vídeo, Lima Duarte também citou o trecho de uma peça do escritor alemão Bertolt Brecht: “Aqueles que lavam as mãos (…) fazem isso em uma bacia de sangue”.

Flávio sempre fora, desde seu começo na arte, um lutador. Aquele ator que conseguia alcançar papéis e espaços através do trabalho e do esforço. O exemplo perfeito do homem que vem de baixo e consegue com muita batalha, alcançar reconhecimento. Digno, honesto, humilde, posicionado social e politicamente, querido pelos colegas e por todos que o conheciam pessoalmente. O retrato oposto de uma ação tão triste consigo mesmo. Me lembro ainda do baque que senti ao receber a notícia. Para mim não era só o ídolo… “Tio Maneco”, era o tio Flavinho.

Tive a sorte, por circunstâncias muito especiais da minha vida – desde o local onde fui criado, até o fato de ter começado no teatro aos seis anos de idade – de conviver desde a infância com algumas pessoas que, para outras crianças eram seus heróis, distantes e míticos, mas aos quais eu chamava de tios e tias. No fundo da minha rua morava o “Falcão Negro” Gilberto Mestrinho, virando a esquina, o “Capitão Asa” Wilson Vianna, logo em frente no Iate Clube, o frequentador assíduo era o “Capitão Furacão” Pietro Mario, a “Emília” Dirce Migliaccio, o “Tio Maneco” Flavio, e a “Dona Benta” Zilka Salaberry, que eu chamava de vó. Eram figuras fáceis no teatro infantil que existia a duas quadras da minha casa, e o qual frequentei desde que nasci. Pela minha veia artística, todos meio que me adotaram, tios e tias. Pela minha “criancice”, eu meio que adotei a todos. Tios, tias, avós. Depois, colegas, amigos, irmãos. Todos foram Mestres. E foram muitos e inexoravelmente importantes na minha formação. 

Exatamente um ano depois, um segundo baque, inacreditável, inaceitável, doloroso. Como era possível, nos questionávamos, que uma pessoa jovem, saudável, cuidadosa, estivesse sofrendo tanto e no final sucumbisse?

Paulo Gustavo (4 de maio de 2021, aos 42 anos). Carisma, timing para comédia e personagens simples e de fácil identificação, foram características marcantes no trabalho de Paulo Gustavo. Um dos maiores comediantes brasileiros, não apenas de sua geração, mas de todos os tempos, Paulo deixa para nós um legado de amor, tolerância e diversidade. Gays, negros e outras minorias eram retratados nos seus esquetes com sutileza, delicadeza e muito humor. Assim ele trazia discussões, reflexões, aprendizados, sentimentos e orgulho. Dentre os profissionais da nossa geração, não há quem não tenha ao menos esbarrado com ele, profissional ou socialmente, e que não traga memórias minimamente felizes e impressões de uma imensa, mesmo que as vezes espontaneamente esporrenta, personalidade. Quando xingava, era obsceno. Quando era sério, era o foco em pessoa. Quando era bom, era magnânimo. Tudo era grande naquela alma e coração de ouro.

Paulo Gustavo ganhou visibilidade no final de 2004, quando integrou o elenco da peça Surto. Na ocasião, já apresentava Dona Hermínia. Dois anos depois, em 2006, estreou o espetáculo “Minha Mãe É uma Peça”. No monólogo, com texto de sua autoria, Paulo voltou a interpretá-la no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. Construída através de sua própria vivência coma a mãe, Dona Dea, ela reúne os aspectos mais cômicos da personalidade de uma típica dona de casa de meia idade, sempre à beira de um ataque de nervos. Sua atuação lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Shell de melhor ator. Em junho de 2013, estreia a versão cinematográfica da peça e a produção para TV do sitcom Vai que Cola, no Multishow, que ganhou uma adaptação para o cinema em 2015. Seu filme ainda teve duas continuações e é um dos maiores recordes de bilheteria de todos os tempos no cinema nacional. Ele deixou o marido, o médico Thales Bretas, dois filhos de um ano, Romeu e Gael, além da mãe Dea Lúcia e a irmã Juliana Amaral.

Num outro momento, num espaço de menos de vinte e quatro horas, um baque duplo.

Paulo José [OMC] (11 de agosto de 2021, aos 84 anos) Um dos mais importantes artistas do século XX, era ator, diretor e fundador de grupos e companhias que marcaram a história cênica no Brasil. Começou a fazer teatro em 1955 em Porto Alegre, onde ajudou a criar o Teatro de Equipe, com Paulo César Pereio, Lilian Lemmertz, Ítala Nandi e Fernando Peixoto, entre outros. Em 1954, atuou na sua primeira peça, “O Muro”, de Jean Paul Sartre com tradução de Lineu Dias. Entre inúmeros trabalhos no teatro, destacam-se: “Os Fuzis da Senhora Carrar”, de Brecht; “A Mandrágora”, de Maquiavel; “O Filho do Cão”, de Gianfrancesco Guarnieri, no qual foi também diretor; e “Tartufo” de Molière. Em São Paulo, Paulo José formou, junto com Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Juca de Oliveira, Paulo Cotrim e Flávio Império, o grupo que adquiriu o Teatro de Arena, criado por José Renato em 1962. Dirigiu e atuou na montagem carioca de “Arena conta Zumbi”. Esteve durante algum tempo afastado dos palcos, tendo regressado em outubro de 2009 para participar de “Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar”.

Estreava no cinema em 1966, no filme “O Padre e a Moça” fazendo o Padre, e logo depois no filme de Domingos de Oliveira “Todas as Mulheres do Mundo”, vivendo Paulo, o personagem principal e alter ego do autor. Recentemente essa obra teve uma nova versão, na Globo. Seguem-se: (1967) “Bebel, Garota Propaganda”, “Edu, Coração de Ouro”; (1968) “A Vida Provisória”, “As Amorosas”, ‘Como Vai, Vai Bem?”, “O Homem Nu”, “Os Marginais”; (1969) “Macunaíma” onde faz a Mãe do Macunaíma e depois o Macunaíma branco; (1971) “A Culpa”, “Gaudêncio, o Centauro dos Pampas”; (1972) “Cassy Jones, o Magnífico Sedutor”; (1973) “Humor Amargo”; (1975) “O Rei da Noite”; (1981) “Eles não Usam Black-tie”, “O Homem do Pau-brasil”; (1983) “A Difícil Viagem”; (1988) “O Mentiroso”; (1989) “Dias Melhores Virão”, “Faca de Dois Gumes”, “Ilha das Flores”; (1991) “Moradores da Rua Humboldt”; (1994) “Amor!”; (1997) “Anahy de las Misiones”, “O Velho – A História de Luís Carlos Prestes”; (1998) “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil”; (1999) “Outras Estórias”; (2002) “Dias de Nietzsche em Turim”, “Morte”, “O Casal dos Olhos Doces”, “Oswaldo Cruz na Amazônia”, “Poeta de Sete Faces”; (2003) “Apolônio Brasil, o Campeão da Alegria”, “O Homem que Copiava”; (2004) “Benjamim” no papel título, “Como Fazer um Filme de Amor”, “O Vestido”, “Person”; (2005) “500 Almas”; (2006) “Saneamento Básico, o Filme”; (2007) “Insolação”; (2008) “A Festa da Menina Morta”, “Juventude”, “Pequenas Histórias”; (2010) “Quincas Berro D’Água” no papel título; (2011) “Meu País”, “O Palhaço”  como Valdemar / Puro Sangue; (2013) “Rânia”, “Luz, Anima, Ação”; (2018) “Todos os Paulos do Mundo”; (2019) “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”.

Na TV fez sua estreia em 1969 em “Véu de Noiva” e seguiram-se: (1970) “Assim na Terra como no Céu”; (1971) “O Homem que Deve Morrer”; (1972) “O Primeiro Amor”, com o personagem Shazan. Fez tanto sucesso que deu origem ao seriado “Shazan, Xerife & Cia.”, no qual revivia-o em aventuras junto com Flávio Migliaccio; (1974) “Super Manoela”; (1975) “Gabriela” (1976) “O Casarão” (1985) “O Tempo e o Vento”, “Armação Ilimitada” como o Pai de Zelda; (1986) “Roda de Fogo” (1988) “Olho por Olho”, “Vida Nova”; (1989) “Sampa”, “Tieta”; (1990) “Delegacia de Mulheres”, “Araponga”; (1991) “Vamp”; (1993) “O Mapa da Mina”, “Olho no Olho”; (1994) “A Madona de Cedro”, “Explode Coração”; (1997) “A Justiceira”, “Por Amor”; (1998) “Era Uma Vez…” onde reviveu o papel de Shazan, “Labirinto”; (1999) “Luna Caliente”; (2000) “A Muralha”; (2001) “Um Anjo Caiu do Céu”; (2003) “Agora É que São Elas”, “Celebridade”; (2004) “Senhora do Destino”, “Como uma Onda”, “Um Só Coração”, “O Pequeno Alquimista”; (2006) “JK”, “Capitu”, “Ciranda de Pedra”; (2009) “Caminho das Índias”; (2010) “Na Forma da Lei”; (2011) “Morde & Assopra”; (2012) “As Brasileiras” e (2014) “Em Família”.

Tarcísio Meira (12 de agosto de 2021, aos 85 anos). Dono de uma voz possante e de um sorriso franco, sempre aberto, e uma presença marcante, que enchia os estúdios assim que ele entrava em cena, “Tarcizão” será sempre lembrado pela mistura de cavalheirismo, gentileza e generosidade com que tratava a todos ao seu redor. Durante sua carreira, o ator foi um dos mais reconhecidos artistas da televisão brasileira, tendo atuado em mais de 60 trabalhos, entre novelas, séries, filmes, teleteatros e telefilmes. Considerado um dos maiores atores e galãs de sua geração, marcou época com personagens fortes no cinema e no teatro, e na televisão com mocinhos e vilões, que marcaram a teledramaturgia nacional.

Estreara no teatro em 1957, mas, tornou-se conhecido em 1959, quando convidado por Sérgio Cardoso, brilhou na peça O Soldado Tanaka, ao lado do veterano. A partir disso, foi parar na televisão em “Noites Brancas”, teleteatro da TV Tupi no mesmo ano, tornando ator fixo no casting da emissora. Foi assim, em um trabalho, dois anos depois, em 1961, que contracenou pela primeira vez com Glória Menezes. Sendo, segundo eles, paixão à primeira vista, se casam um ano depois, em 1962. Em 1963, marcam história ao trabalharem juntos na primeira telenovela diária da televisão brasileira, “2-5499 Ocupado” na TV Excelsior.

Produzida pela extinta TV Excelsior, “2-5499 Ocupado”, foi exibida de 22 de julho a 7 de setembro de 1963, no horário das 19h30, totalizando 42 capítulos. Foi uma obra adaptada por Dulce Santucci, a partir do original do autor de radionovelas argentino Alberto Migré, com a direção de Tito Di Miglio. Há poucos registros da novela devido ao fato de que antigamente as fitas eram reutilizadas, gravando novos capítulos e novas novelas por cima de produções antigas. Na trama, Emily (Glória) é uma presidiária que trabalha como a telefonista de sua cadeia, e liga sem querer para o escritório de Larry (Tarcísio), no que, ambos se apaixonam pela voz um do outro. Temendo que ele descubra a verdade, ela mente que se chama Laura, o nome de sua companheira de cela (Lolita Rodrigues), e se enreda numa teia de mentiras cada vez maior para não o encontrar. Porém, quando Laura sai em liberdade condicional, ela também se apaixona por Larry e decide roubá-lo de Emily.

Do começo da primeira década da teledramaturgia do Brasil, essa novela seguia o padrão de reaproveitamento de textos de autores sul americanos, em que muitas novelas estavam sendo adaptadas de roteiros mexicanos, cubanos ou argentinos, como por exemplo, a adaptação de “O Direito de Nascer” (dezembro de 1964 a junho de 1965), em associação com a TV Rio. O conhecido título de autoria do cubano Félix Caignet foi escrito em 1946 para a Rádio Havana e repetidamente adaptado para o rádio e para a televisão na América Latina, geralmente a partir de agências de publicidade e para anunciar produtos, como a Lintas ou a Colgate Palmolive, muitas vezes encarregadas não só do patrocínio, como da produção do gênero, que era considerado a ‘Soap Opera’ da América Latina.

Protagonizou ainda mais sete telenovelas na mesma emissora, até se transferir com a Glória para a TV Globo, onde estrearam em Sangue e Areia. A partir dali atuaram juntos várias vezes, como em “Irmãos Coragem”, “Guerra dos Sexos”, “Torre de Babel” e “A Favorita”, além do seriado “Tarcísio & Glória”, produzido especialmente em homenagem ao casal.

O primeiro filme em que atuou foi “Casinha Pequenina” (1963), ao lado de Mazzaropi. Entre suas mais importantes interpretações no cinema, encontram-se “A Idade da Terra”, de Glauber Rocha, e “O Beijo no Asfalto”, de Bruno Barreto e Doc Comparato, ambos em 1981.

Tarcísio e Glória haviam encerrado seus contratos com a Rede Globo em 11 de setembro 2020, depois de 52 anos na emissora. Se aposentado, o casal passou a morar em uma fazenda de criação de gado e plantações em Porto Feliz, no interior de São Paulo. O casal já estava vivendo na propriedade, durante a quarentena por conta da pandemia de COVID-19, quando receberam a primeira dose da vacina em 16 de fevereiro de 2021, e em 16 de março a segunda.

… essa matéria continua

Joel Duarte Junior.

Ator, Diretor, Produtor Cultural, Professor de Teatro e graduado em Administração Pública. Polímata, apaixonado pela transmissão e ensino da cultura, Joel também é compositor, escritor e tradutor.

*Joel Duarte Junior é casado com a colunista da FORS, Lis Maia.

*As fotos dessa matéria foram compiladas através de pesquisa pela internet.

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