O Teatro com o poder de transformação

Por Luiz Naas

14/07/2020

O Teatro com o poder de transformação

Quando encontrei o teatro, percebi que o mundo se apresenta como uma excelente ferramenta de descoberta. E assim, conheci Bertold Brecht, dramaturgo alemão criador do teatro Épico, que é um teatro didático que busca um distanciamento entre o personagem e o espectador, para que que este seja capaz de refletir, atuar como um observador crítico, se posicionar, se comprometer e acima de tudo que consiga perceber melhor as formas de injustiças e opressões.

Nesta entoada, nos da Equipe do Teatro tínhamos  um grande desafio, mergulhar no texto da peça didática de Brechet, “AQUELE QUE DIZ SIM, AQUELE QUE DIZ NÃO”, escrita em 1930.

A peça conta a história de uma cidade que é atacada por uma epidemia muito perigosa. Neste contexto, um menino decide acompanhar seu professor e um grupo de estudantes numa expedição às montanhas em busca de remédios e instruções e, no seu caso específico, em busca da cura para a doença da sua mãe. Eles decidem ir à procura dos grandes médicos que moram além das montanhas, pois acreditam que esta seja a única esperança para salvar os moradores da cidade.

No caminho, o garoto que havia acompanhado o grupo acaba adoecendo. Neste ponto, na parte do texto “Aquele que diz sim”, o grupo faz valer o costume que diz que “o indivíduo que não consegue continuar a viagem deve ser deixado para trás, pois não seria certo sacrificar o objetivo da viagem e deixar de salvar muitas vidas em troca de apenas uma”.

O menino, é então arremessado penhasco abaixo depois de concordar com o costume. Na versão de “Aquele Que Diz Não”, a atitude do garoto é diferente, uma vez que ele diz não concordar com o velho costume e que não merece ser jogado do penhasco, mas sim retornar à cidade, acompanhado dos outros membros do grupo.

Nestes dias de confinamento e exaustão, esta peça voltou ao meu encontro e foi possível perceber que a questão principal abordada por Brecht é a problemática que diz respeito justamente à conservação de um costume socialmente aceito, que vem atrelado à moral.

Vivemos hoje um momento parecido? Estamos nos acostumando com o sofrimento alheio, incorporando como se fosse normal? Ou precisamos exercer nosso direito de dizer NÃO. De sermos críticos. De ir contra as normas que nos colocam dentro de caixas sem espaços onde não podemos exercer nosso direito de abrir os braços?

Mais do nunca precisamos abrir os braços, falar alto. Estamos em tempos de liberalismo selvagem em que fake news e outros absurdos ocupam os noticiários todos os dias. Não podemos aceitar que o mal, o lado ruim das coisas, a falta de caráter, a insensatez e a pobreza (dos outros) torne-se normal.

Um povo com acesso a Arte, jamais será cego.

Sim, VAMOS DIZER NÃO.

Luiz Naas

Luiz Naas

Teatro