Fernandisticamente e o Ateliê Pepó

Por Adriana M dos Santos

15/02/2022

Fernandisticamente e o Ateliê Pepó

Conheci a artista Fernanda Fonseca Machado nos idos anos noventa no Centro de Artes da Udesc em Florianópolis/ Ilha de SC. Nossa conversa iniciou em sala de aula, mas é preciso um pequeno aparte: a sala de aula era um prédio montado com partes de uma usina desativada a qual foi cedido à universidade para que abrigasse o curso de artes visuais.

Assim que, na origem os alunos e professores que por ali passaram já tinham de antemão um espaço não convencional como parte da formação acadêmica.

Devido ao caráter provisório das instalações e, pelo ambiente de arte que se constituiu nos anos que antecederam a virada do século XX, a abordagem era sempre imbuída de muita liberdade para transcender, criar atravessamentos nas categorias de arte que o currículo do curso propunha. Quem passou por ali teve como adquirir um arsenal um tanto peculiar que
de algum modo influenciou toda a geração de ceartianos advindos daquele contexto.

Evidentemente que havia certa precariedade…. o piso muitas vezes não era vedado suficiente para reter a tinta que caía no chão nas aulas de pintura, por exemplo, e algumas serigrafias que secavam na sala do piso inferior sofriam interferências levando o professor de gravura à exasperação, mas aqui neste texto vou me ater às boas experiências do barracão, como era chamado.

Como mencionei, começamos uma conversa sobre arte e vida que segue até os dias atuais. Muitos e muitos artistas tiveram sua passagem pela vida acadêmica, de certo modo a formação universitária serve a alguns como uma espécie de âncora e catapulta simultaneamente, ali naquele espaço/tempo como aluno/aprendiz e mestre, pois que todos temos com o que trocar, questões que apontam o rumo do que irá acompanhar o profissional para a vida emergem, se instalam e conduzem ou mais a fundo na relação com a arte ou um desvio radical para outro mundo. No caso da Fernanda, acredito que tenha se dado uma imersão que, dadas as circunstâncias, foi num mais-além das prerrogativas do sistema das artes.

Atualmente ela coordena um projeto pessoal, o ateliê Pepó fundado em 1995, idealizado dentro do hospital psiquiátrico D. Pedro II no Engenho de Dentro/RJ.

Ensinar arte ou qualquer outra disciplina fora do meio acadêmico é uma opção e nunca uma alternativa. Contudo sabemos que fora do meio acadêmico não existem formas de regulamentar esta prática, e o despreparo é fato. A prática da arte como caminho para uma jornada de construção do artista não é algo simples. Mediar essa prática exige estudo e muita pesquisa, especialmente quando o viés é terapêutico. Quando gastamos nosso dinheiro com qualquer serviço, queremos resultado,
mas infelizmente só sabemos se foi bom depois que pagamos e experimentamos..
(…)
O Brasil não valoriza as artes, muito menos entende a cultura como meio de formação do cidadão, fator que torna possível o surgimento de tantos pseudo mestres incapazes mas insistentes e que contribuem largamente com este fenômeno de inadequação da arte como ciência fundamental na
formação da identidade social, do senso crítico e do orgulho de pertencer. O indivíduo que se mete a ensinar arte sem nunca ter estudado não valoriza a arte, se valorizasse perderia a vida estudando e se preparando para ensinar algo realmente importante. (…)
Se você está aprendendo num ambiente informal, não acadêmico, ou numa instituição privada,sempre pergunte ao seu professor/orientador sobre a sua formação, experiência, e especialidade.
Questione mesmo. (…) Se quiser saber sobre minha formação e experiência, estou por aqui, terei o maior prazer de contar a minha história.

[Escrito da artista em apresentação à sua proposta de ateliê]

Pepó é uma palavra em tupi guarani que significa “asa” (pipu, pepu), “pena da asa” ou “barbatana de peixe”, “pepokue= pena de asa. “Hu’y pepo = pena de flecha, plumas. Descreve a artista em sua página no instagram.

Partindo desta definição, da escolha desse imaginário simbólico, podemos deduzir que a liberdade seja uma pulsão fundamental na proposta de trabalho, na liberdade de escolha principalmente. A obra visual/plástica da artista expande o conceito de liberdade, traduz a “asa” como viés de imersão num espaço infinito da cor, da linha e do movimento do corpo sobre a superfície. Suspensa em panos que pendem do teto, bailarina por formação, a artista move o corpo sob uma tela no chão que vai sendo elaborada nesse movimento de dança em suspensão, como um pêndulo a pintura vai se tornando parte do corpo que a forma ou de-forma e o tempo, marcado num metrônomo invisível, se materializa na tela. Há que se organizar aqui duas propostas: a da artista enquanto produtora de material plástico visual conceitual e do ateliê Pepó.

De algum modo as duas convergem inevitavelmente, pois a tempos que particularmente constatei que a pessoa que ensina traslada sua carga de artista para o modus operandi de educadora e orientadora. É um processo no qual a imersão na própria obra conduz a uma necessidade cujo fluxo define a forma como o conhecimento vai sendo posto, considerando que o ateliê em questão recebe frequentadores em busca de autoconhecimento através da arte.

Seguindo na definição do nome “Pepó” e traçando brevemente um paralelo com o sistema da arte em um sentido crítico, constatamos certo paradoxo que se instala a propósito da função cultural social do artista e do que o circuito de arte considerando aqui galerias, museus, feiras de arte contemporânea e afins, define como válido, legítimo e conceitualmente aprovado. A proximidade do termo “terapia” já em si causa certa tensão em
alguns experts, pois existiu por muito tempo uma resistência nos meios acadêmicos, mais precisamente nos cursos de formação em artes visuais, na criação de um espaço de reflexão e formação dentro destes, para a arte terapia. Sendo que se impôs, com o tempo, um estudo separado. O que nos leva a pensar a proposta, impregnada de influência da grande psiquiatra Nise da Silveira (1905 – 1999) a qual Fernanda teve contato pessoal por
conta de visitas ao hospital psiquiátrico já mencionado acima, que faziam parte de sua pesquisa em um trabalho de conclusão de curso, no qual o tema foi o material produzido por um dos pacientes: “(…) como estudante passei um mês visitando o ateliê diariamente como pesquisa de campo. Meu tcc foi sobre um artista esquizofrênico paciente da Dra Nise. Nessa época ele já não era mais vivo, mas precisava entender a dinâmica do que foi feito no ateliê do hospital. Maior sorte na vida! (…) essa experiência foi um divisor de águas no que eu entendo por fazer arte.” Nesse espírito surge o ateliê que se tornou um ponto de convergência a todos que procuram, na arte um canal de auto conhecimento cuja expressão proposta pela artista é a intuição como impulso para chegar à materialidade da pintura, esta juntamente com o desenho, meios pelos quais os frequentadores do ateliê são estimulados a trabalhar seus desejos, anseios, necessidades que advém de processos
internos.

Fernanda Fonseca Machado pintando no chão.
Fernanda Fonseca Machado iniciando uma pintura no chão.
Fernanda Fonseca Machado pintando no chão.
Fernanda Fonseca Machado finalizando pintura.

O ateliê como espaço de pesquisa demanda estas duas vertentes quase sempre interligadas, o artista canaliza suas forças em uma imersão em si mesmo, seja qual for o foco de sua busca. As duas forças, a do artista e a do orientador que recebe o público afinado com sua proposta, convergem neste caso para um aprofundamento da pintura intuitiva.

(…) O objetivo da pintura intuitiva é estimular e exercitar a criatividade através da consciência intuitiva e seus mecanismos de acionamento. Encontrar essa voz interna e aprender a ouvi-la. Repensar o fazer artístico através da pintura como prática meditativa. Conhecer as técnicas e materiais expressivos dentro desse contexto. Pensar corpo, movimento e gesto como dispositivos expressivos, captadores intuitivos. Meditar através da pintura, relaxar através do gesto e descobrir um mundo interno rico, intuitivo e cheio de potencial criativo. [ Fonseca Machado, Fernanda. P.9 TCC: A PINTURA INTUITIVA E O ENCONTRO COM A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL..Fpolis, 2020]

De encontro às perspectivas atuais onde o momento pandêmico impõe um voltar-se para dentro de si ainda mais intenso por força de uma pressão coletiva onde o sujeito precisa se submeter à ordem de se proteger para proteger o outro, o trabalho de Fernanda cruza certas fronteiras dadas como limite entre arte e terapia, transcendendo estas normativas
limitantes, transformando em limiares.

“Não se trata mais de uma pintura de cavalete, mas de uma pintura no próprio chão (os verdadeiros cavaletes só têm o chão como horizonte)”. [Deleuze, Gilles. p110. Francis Bacon, lógica da sensação. RJ: Zahar Editor. 2007]

Pensar que o tempo do artista escorre para sua obra, e a forma com que esta acontece reflete diretamente as problemáticas que o envolvem como indivíduo social, cultural, político…em um mais-além de sua própria vontade, a pintura intuitiva como foco da artista se torna um oásis em um deserto de aflições cuja força centrípeta se torna um vortex de cura.

E eu acredito na liberdade que o ato criativo oferece ao indivíduo.
Eu acredito na força e no potencial da intuição.
E eu acredito que a pintura intuitiva pode salvar muita gente desse mundo louco.
E eu também acredito que todos somos artistas capazes de reinventar e ressignificar nossos próprios mundos.
[Fernanda Fonseca Machado]

Fernanda Fonseca Machado deitada sobre pintura.

fernandisticamente Mundo meu… vai se transformando… sempre no chão. #ateliêpepó

Adriana M dos Santos

Adriana M dos Santos

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