Juliano Poeta – uma conversa sobre escrita

Por Letícia Minosso

01/06/2020

Juliano Poeta – uma conversa sobre escrita

Juliano Poeta é um escritor e artista que vive em Florianópolis. Desde criança criava personagens, e não passou no primeiro vestibular pela má nota em redação – por tangenciar o tema.

Nascido em 1991 em Porto Alegre, formou-se em Administração, trabalhou por 8 anos como consultor e empresário, e em 2019 decidiu dedicar-se integralmente à arte. Em 2015 publicou seu primeiro livro, “Só sei quem não sou”, e em 2019 lançou “Teto da Consciência”, unindo o trabalho de mais 20 artistas. Você pode conferir o trabalho dele e comprar seus livros em www.julianopoeta.com


Em que momento você descobriu que gostava de escrever?

Na escola, nas aulas de redação adorava quando era “tema livre” e eu podia criar um mundo inteiro de dentro de mim. Depois, quando eu tinha uns 20 anos, um dia tava me sentindo muito mal. Peguei uma folha branca e despejei ali toda raiva e tristeza que tava sentindo, e quando acabei percebi que me sentia mais equilibrado do que quando comecei. Descobri que a escrita tem esse poder de transformar o que tem dentro de nós, e desde esse dia comecei a escrever pra botar fora meus sentimentos e pensamentos, e depois a compartilhar eles em forma de poesia.

Em que você se inspira para escrever?

Nas coisas que vivo e no que está acontecendo à minha volta. Se tô na natureza escrevo sobre a natureza, se tô na cidade falo sobre a cidade. Se tô com saudades escrevo sobre ela, se tá doendo falo sobre a dor. Minha escrita é sobre a realidade do que acontece dentro e fora de mim.

Você escreve pensando em alguém?

Hoje escrevo mais sobre amor-próprio, sobre ser quem eu sou. Faço também homenagens com a escrita, então já escrevi para muitas pessoas queridas. Descobri que escrever sobre alguém é o presente mais autêntico e valioso que posso dar. Unindo a poesia com o improviso faço hoje narrativas poéticas, crio uma poesia sobre qualquer coisa que esteja acontecendo, então já fiz isso pra eventos, cursos e até casamentos, transformo o que acontece ali em uma poesia e recito pra ser a “cereja do bolo”.

Com um mundo cada vez mais injusto, como você faz para sempre ver o lado bom das coisas?

Vejo um mundo cada vez mais polarizado, as pessoas indo pros extremos. Eu busco entender o centro das coisas, o que é a essência do que a gente tá falando. Pra fazer isso treino enxergar não só com os olhos, mas com o coração, e pensar “o que eu diria se eu tivesse a vida que essa pessoa tem?”. Assim a gente consegue chegar num lugar de aprendizado, não só de discussão pra ver quem ganha a disputa. Todas as coisas tem seu lado luz e seu lado sombra: além de ver o lado bom busco ver a coisa por inteiro, assim aprendo sempre algo novo.

Como você vê os eventos de literatura no Brasil?

Vejo que tão cada vez mais descentralizados, muitas feiras independentes acontecendo por todo país. Eu prefiro vender livro na rua sabe? Pra mim ficar numa banca esperando alguém vir comprar livro é utopia, prefiro abordar as pessoas que tão sentadas em praças e trocar uma ideia. Dá mais resultado e é mais divertido. Os grandes eventos de literatura, tipo a Feira do Livro, são incríveis porque unem uma massa de pessoas interessadas em consumir literatura, isso tem força. O próximo passo é esses eventos se aproximarem da arte de rua, unir o grande público com quem faz a arte acontecer fora dos grandes centros.

Como nasce um livro?

Como nasce uma criança, cada um tem o seu processo. Tem livro que nasce de parto natural, outros de cesárea, tem livro que é planejado, outros não. Tem livro que morre antes de nascer, e a gente tem só que aceitar. Quando eu faço um livro faço ele pra mim, não pra agradar os outros. Essa mudança é libertadora, tira o peso da arte de precisar ser desse ou daquele jeito, deixa ela ser quem ela é. Assim como uma criança, a gente faz um livro pro mundo, não somos os donos dele, somos só o canal pra eles virem ao mundo.

O “Só Sei Quem Não Sou” surgiu da vontade de trazer pro mundo físico as poesias, porque até então só tinha elas num blog. Me juntei com o Tiago Barradas para unir as poesias aos desenhos. O “Teto da Consciência” nasceu da vontade de homenagear a Terça do Desenho, um grupo de desenho que tinha com meus amigos em Porto Alegre, e aí juntei os desenhos da galera com as poesias que faço e com um projeto gráfico ousado.

Agora assumi o desafio de criar um livro-agenda focado em autoconhecimento para homens, chamado “Jornada Solar”. Esse nasceu da vontade de entender meus ciclos internos como homem e minha conexão com os ciclos da natureza, algo que as mulheres já estudam há tempo. Me juntei com outros homens e estamos gestando essa jornada, que vai ser lançada em novembro de 2019.

O que é poesia para você?

Aqui tenho que ser clichê: poesia é tudo, porque poesia é o jeito como vemos as coisas. Uma árvore que balança na ventania, um pai e sua filha esperando o ônibus, um casal que se separa, uma vida que nasce, outra que se vai. Tudo isso é poesia pura. Na vida tudo passa, e a poesia é uma maneira de aceitar a impermanência da vida.

Letícia Minosso

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