50% No Ato de Iam Campigotto

Por Adriana M dos Santos

20/10/2020

50% No Ato de Iam Campigotto

E o corpo ainda pulsa, canta, declama, fala Arnaldo Antunes. O corpo na arte pulsa muito, desde os primórdios…na ação do homem das cavernas ao riscar nas paredes,, ao touch das telas virtuais… A arte recebe toda a carga histórica e processa e elabora tudo nas suas entranhas.

O corpo do artista já de longa data pode ser o suporte da obra, perpassando todas as grandes performances e aqui menciono o alemão Joseph Beuys (1921-1986)​ em sua famosa ação performática “I like America and America likes me”​ de 1974. Gina Pane e todos​ que compuseram a body art, Márcia X, Niki de Saint Phalle. Antonio Obá este artista que teve a performance Atos da Transfiguração: receita de como fazer um santo​ de 2015 duramente censurada aqui no Brasil, e toda a obra de Marina Abramovic entre tantos artistas que transitam nestes limiares entre desenho, fotografia, espaço, pintura… Mas acima de tudo, elaboram o corpo sob o viés político, não obviamente no sentido partidário, mas neste que o artista francês Daniel Buren (1938) em um texto intitulado Advertência (1969) escreveu: 

Todo ato é político e, quer estejamos conscientes disso ou não, o fato de apresentarum trabalho/produção não foge a essa regra. Toda produção, toda obra de arte é social, tem uma significação política​.” 

Ao que pese o momento em que esta citação se deu, nos afeta em uma máxima até os dias atuais, pois que a arte possui esta profunda constituição na origem, a de conter algumas verdades inerentes à temporalidade. 

Na exposição de Iam que pode ser visitada no endereço http://galerias.itajai.sc.gov.br até dia 30 de outubro, algumas questões próprias da arte contemporânea se apresentam logo de início, quando ícones, signos os quais qualquer usuário de internet percebe, devem ser acionados para que se adentre a obra.

A tela branca abre e a voz do artista dá início à uma narrativa cujo corpo desperta para um lugar do reconhecimento…nos damos conta de certos estados corporais ou estados de corporalidade, melhor dizendo. Nossa consciência vai sendo permeada através da narrativa, enquanto descemos com o cursor ou o mouse e vamos encontrando imagens do artista dialogando consigo mesmo…suponho.

O movimento em relação aos objetos escolhidos, a vestimenta de um design muito interessante, que oscila entre um uniforme, uma camisa de força, um jaleco de cientista.. chama particularmente atenção. Neste traje que deflagra uma intenção de singularidade, também está a lógica da repetição. Nos cinzas aos quais Samuel Beckett associava às ilusões, está tal qual o título da exposição sugere, os 50% de preto e os 50% de branco. No texto na parede o artista diz: 

50% no ato, experiência artística iniciada no Bloomsday de 2016, em Desterro, lida com metades. Metade que se tem. Metade que se quer. Metade que se conhece e outra parte enigma. Metade real. Metade ficção. Metade do desejo de totalidade.

Nesta atuação performática a leitura de Ulisses, de James Joyce,  é uma das proposições fundantes. E dela se desenvolvem  a incorporação da escritura do texto clássico, como a lembrança da sereia, metade humana, metade animal,  e por conseguinte, a (produção poética propriamente dita) imaginação.

A montagem com sua poética de narrativa, nos impõe a questão da corporalidade presencial que paradoxalmente está num jogo de presença/ausência uma vez que é virtual, porém nos afeta como proposição. Um som que encontra eco no corpo do observador e ao escutar, ver e sentir se depara com o meio corpo meio vazio existencial.

Somos metade isso e aquilo, em um tempo de disparatadas aberrações comportamentais, conceituais, políticas e ideológicas, a realidade nos conduz a estas situações por assim dizer, enunciadas nas imagens de Iam, em estado de metades, fracionados pela contaminação, pela alienação, pela insanidade do absolutamente outro.

Escutar o corpo é preciso, para não sucumbir à um estado de anestesia, de apatia, de indiferença. Dilatar o presente diz o enunciado antes da imagem onde o artista se contorce levemente entre chão, banqueta e suporte de partitura e segura um pequeno livro… 

Adriana M dos​ Santos​       

Ilha de SC
Outubro de 2020          

Adriana M dos Santos

Adriana M dos Santos

Artes